O Labirinto

*Por Alex Degan

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro ter destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.

BORGES, Jorge Luis. “Laberinto” / “Labirinto”. In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista (organização e tradução). São Paulo: Terracota, 2013.

O resultado das urnas revelou um Brasil que optou por deixar de flertar com a vertigem para mergulhar no abismo tortuoso. O novo Parlamento que emerge está recheado de figuras imaturas, desonestas, moldadas pelos algoritmos que alimentam as redes sociais e sempre dispostas ao melhor enquadramento, ao melhor corte e ao protagonismo que viralize. Não querem negociar, debater ou fazer política, mas lacrar e ampliar sua base de seguidores com engajamento que gere receita. Nessa tragédia acompanhada por smartphones, os berros dos deputados mais bem votados – sempre histriônicos em suas performances – não deixam dúvidas: teremos muita baixaria pela frente, mas com a certeza da transmissão em lives no Instagram.

O Senado, que já contou com gente do calibre de Benedita da Silva, Darcy Ribeiro, Abdias do Nascimento, Eduardo Suplicy, Paulo Brossard e Fernando Henrique Cardoso, diminuiu enormemente a sua relevância política, convertendo-se em um covil de entusiastas de autocratas repulsivos como Bukele e Netanyahu. A casa, já formatada em um clubinho de vantagens por Alcolumbre e a “turma do Mounjaro”, vai piorar significativamente.  Provavelmente, teremos um estouro de boiada esmagando direitos e conquistas dos mais humildes, situação que vai caminhar pari passu com o “liberou geral” no bonde do orçamento secreto. É o mínimo que podemos esperar dessa gente desqualificada que foi eleita. Como estratégia de ilusionista, vão acenar com a liberação das armas, encarceramento de mais gente em masmorras e a ressurreição de algum espectro moral para distrair a galera. Com a outra mão, vão puxar a nossa carteira. E nós vamos cair na esparrela.

O canalha que se aproxima da Presidência da República é dono de uma ficha corrida capaz de intimidar a galeria de vilões do Batman. Provável funcionário fantasma, coletor de rachadinhas, advogado de policial acusado de matar uma menina de cinco anos, proponente de homenagem a milicianos e irmãozão de banqueiro que se locupletou com dinheiro de aposentados, seu maior feito, até então, parecia ser o funcionamento espetacular de uma fantástica loja de chocolates. Resta saber se vamos mesmo coroar esse notável currículo, entregando a ele, na subida da rampa do Planalto, um cheque assinado em branco, que prontamente será endossado ao Mister Trump, o novo Capitão Donatário destas terras morenas.

Santa Catarina respondeu prontamente ao sinistro apito de cachorro, contribuindo com uma bancada federal e estadual desalentadora. Por exemplo, a tríade que irá representar os catarinenses no Senado não esconde sua má vontade para com a UFSC, assim como parte expressiva dos deputados, apontando para anos difíceis em um cenário onde o orçamento federal está capturado pelos congressistas. Dessa maneira, enquanto dependemos profundamente das migalhas desses figurões de corações sujos, com suas emendas negociadas em balcões de varejo, esvai-se qualquer projeto nacional que não responda pela destruição do que é público e pela guerra de todos contra todos. Talvez, envolta em uma colorida e bela embalagem, a barbárie seja assistida por consultorias do Pablo Marçal. E olhe lá.

Zeitgeist, “o espírito do tempo”, não brinca mesmo em serviço. Tanto é assim, que a explosão de desgraças que nos atinge parece não sensibilizar o nosso sindicato, envolto em uma barafunda constrangedora. Completamente alienadas dos acontecimentos nacionais, as duas forças políticas que disputam sua presidência estão travando um inacreditável embate jurídico nesse dramático momento, gastando uma preciosa energia que deveria estar direcionada a outras frentes. É desesperador o nosso abandono. As duas chapas, que se comunicam pessimamente com sua base, estão cegas em suas picuinhas, aplicadas em afastar cada vez mais os docentes da luta comum. Mais do mesmo. Absurdas filigranas administrativas, típicas de gente encantada com o som de sua própria voz, são apontadas por ambos os lados para justificar suas minúsculas posições. Assustadoramente, nem mesmo a comoção diante da anunciada tragédia eleitoral desperta um pouco de empatia. Realmente, deve ser reconfortante sentir-se dono de toda razão.

O grupo da situação se orgulha de seu zelo pelo regramento. Após anos de inexpressivas gestões, seus dirigentes reduziram a Apufsc apenas a isso: seu regramento. E em nome de uma discutível institucionalidade, fazem cara de paisagem. Como se comportaram na ocasião do debate em torno do nome do campus Trindade, novamente eles silenciam quando mais precisamos. Com as ruas em convulsão, tingidas com as cores dos movimentos sociais e da juventude, não se enxerga faixa de nosso sindicato. Necas de pitibiribas. Nem mesmo uma única filipeta, objetivando alertar a categoria para os riscos que estamos correndo, foi rodada em mimeógrafo. Nem mesmo um solitário adesivo foi colado em camisa polo. Nada. Constituiu-se um curiosíssimo caso de uma entidade sindical que, vinculada ao Proifes e acusada pelos bons moços de ser pelega do PT, vestiu a carapuça, só que pelo lado inverso. Silêncio. É melhor evitar a fadiga.

O grupo de oposição, ornamentado com simpáticos lencinhos, continua gravitando em torno da idade infantil do sindicalismo e fazendo a sua especialidade: birra. Permaneceram durante os quatro anos de mandato do Lula descendo o porrete na realidade. O problema é que ela, a realidade, não liga muito para as pancadas que toma. É, no mínimo, irônico que esse pessoal, que adora pavonear-se como analistas de conjuntura, não consiga desenvolver o ínfimo pragmatismo. Querem o mesmíssimo assembleísmo de ontem, o que, claramente, não vai mobilizar e nem engajar novas almas por si só. Na verdade, pouco importa. Autorreferentes, encontram na certeza moral de estarem sempre certos uma espécie de bálsamo ou o espaço para alguma poesia, mesmo que revestida de cinismo. Ou para conseguir dormir com o convencimento de que estão do lado correto da História. Assim, meu caro, fica muito mais fácil.

Cá entre nós, Romeu e Lino estão mais próximos do que distantes. Verdadeiramente, creio que ambos defendem a universidade pública e gratuita que lutaram para construir. Eles não são inimigos e eu sinto que estamos do mesmo lado da trincheira. Os dois são duas pessoas boas, corretas e valorosas. Também acredito que nenhum dos nomes que constam nas nominatas constituintes das chapas apertou, no escurinho da urna, o número 22. Não obstante, todos eles se revelam incapazes de olhar para o nosso labirinto e ver, mesmo que através das trevas, a ausência do Minotauro. Até ele foi destituído de sua bestialidade humana e posto para correr pela cadela descrita por Brecht. O fato é que estamos terrivelmente sozinhos. No labirinto em que nos metemos, os iluminados querem permanecer mais um pouquinho na celeuma Andes-Proifes, independentemente da baba viscosa e cheia de sangue que está escorrendo sobre as nossas cabeças e sufocando a nossa respiração. E que se dane o concerto dos aflitos.  Que se exploda a opinião de quem não acrescenta. Que se esgote toda angústia, com todas as suas idiossincrasias desimportantes. Não interessa, pois o que realmente importa é que eles se sintam perfeitamente corretos, mesmo que igualmente perdidos.

Alex Degan é diretor do CFH e professor do Departamento de História (CFH/UFSC)

Artigo recebido às 17h49 do dia 15 de outubro de 2026 e publicado às 8h16 do dia 16 de outubro de 2026