A República de Alhures e Seus Novos Censores 

*Por Samuel da Silva Mattos

A rotina daqueles anos difíceis não era marcada apenas pelo silêncio das praças, mas pela escuta escondida nas salas de estar da distópica República de Alhures, nos fins do Mundo. Havia um verdadeiro ensaio de cumplicidade no ato de ouvir. Diante do rádio ou da vitrola, o cidadão comum não era um ouvinte passivo.  

Ele colava o ouvido na caixa de som para decifrar os estalos e os vazios deixados pelos cortes da censura. Havia uma ironia deliciosa nesse hábito doméstico: ao tentar proteger a sociedade proibindo os versos incômodos, o governo conseguia o efeito oposto. 

Cada trecho cortado virava um mistério irresistível. Quando a burocracia barrava a letra e liberava apenas a melodia instrumental, o público completava a música na própria mente, preenchendo o silêncio com o pensamento livre que o Estado tentava sufocar. O censor, que se achava o guardião da ordem, virava sem querer o editor de uma obra que pretendia destruir.  

Ele não percebia que o vazio que carimbava como “vetado” ecoava nas ruas com a força de um hino. 

Essa resistência unia os lares de Alhures a um cenário vizinho muito maior, onde outras ditaduras usavam ferramentas diferentes para o mesmo fim. Enquanto em Alhures o regime fingia seguir as leis e obrigava os artistas a usarem disfarces nas palavras, reinos do outro lado do oceano proibiam o próprio idioma local de ser falado nas ruas. Mais além, outras tiranias dispensavam as papeladas e partiam para a violência direta, sumindo com versos, vozes e corpos.  

Em todos esses lugares, o poder fardado errou ao subestimar a força do dia a dia. Eles não entenderam que, onde a opressão tentava impor o medo e o luto, a inteligência das pessoas respondia com o deboche e a ironia. 

Agora, quando as eleições presidenciais finalmente se aproximam em Alhures, os velhos fantasmas do controle tentam voltar. Mas eles trocaram as antigas fardas por roupas bem mais modernas: os ternos dos tecnocratas e as regras invisíveis dos algoritmos. A mordaça feita de carimbo e tinta deu lugar ao bloqueio digital e ao controle do que se pode ou não falar na internet. Os novos censores operam em salas fechadas de grandes empresas, decidindo o que chega às telas sob a desculpa de proteger o debate público.  

Na disputa eleitoral deste novo século, a liberdade virou refém de programas de computador feitos para apagar as nuances do mundo e transformar tudo em brigas virtuais. Os novos políticos, fascinados por números de engajamento e controle de dados, esquecem que o povo de Alhures aprendeu a rir do poder há muito tempo. No fim das contas, a resistência nunca dependeu de termos de uso ou de autorizações de redes sociais. O deboche fino continua a driblar os sistemas mais modernos.  

Diante das telas que tentam guiar a opinião, a risada livre confunde os robôs e desarma o medo, provando que o desejo de liberdade não pode ser calculado por nenhuma máquina.

*Samuel da Silva Mattos é procurador da Fazenda Nacional aposentado, professor de Direito Constitucional da UFSC, advogado, filósofo e cronista do quotidiano.

Artigo recebido às 10h29 do dia 17 de outubro de 2026 e publicado às 8h42 do dia 19 de outubro de 2026