*Por Eduardo Meditsch
Dirigir a Apufsc nunca foi tarefa fácil, tendo em vista que os dirigentes atuam em trabalho voluntário e, no caso dos diretores que estão na ativa, não tem direito a nenhuma hora em seus planos de trabalho para exercer esta função. Ou seja, é um trabalho a mais para se somar a suas já sobrecarregadas jornadas docentes. O que quero dizer é que errar é mais do que humano nestas condições: é quase inevitável. Por isso também, é bem razoável levar um pouco livre eventuais falhas de nossos colegas que se resignam a este sacrifício por nós. Principalmente diante da pouca participação da maior parte dos filiados e do desinteresse dos nem filiados, uma desanimadora maioria.
Por outro lado, a Apufsc é um sindicato rico e poderoso, que contrasta com a maior parte das entidades afins, levadas à falência pelo esforço bem sucedido dos governos Temer e Bolsonaro para destruir a organização dos trabalhadores (vejo o triste exemplo do também meu Sindicato dos Jornalistas, hoje à míngua). Uma estrutura assim bem armada como tem a Apufsc leva à responsabilidade de colocar seus recursos a serviço dos interesses da categoria e também dos interesses maiores da educação, da ciência, da universidade e da sociedade, como propõe seu estatuto e nossos juramentos profissionais. Quanto a isso, não há como passar o pano.
O que tenho sentido, no entanto, é que, neste aspecto, o grupo político que dirige atualmente a Apufsc (e de que já participei) está há algum tempo perdendo o rumo. Entre a “Apufsc de Lutas”, gestão de que fiz parte e que tirou o sindicato de mais de uma década de sonolência (debatendo, mobilizando, puxando passeatas e manifestações, levando a UFSC para a praça e trazendo os companheiros combativos a se filiar), e a atual proposta de “Apufsc de todos(as)” – que fofura! – a distância vai da reanimação ao coma induzido. Na melhor das hipóteses (e há sim quem merece respeito no grupo), a proposta eleitoral da chapa 2 pode ser produto da falta de clareza e do equívoco. Na pior delas, ser fruto do cálculo político, buscando votos de quem, entre os filiados, conspira contra a democracia e apoia quem quer destruir a universidade pública.
O silêncio da atual Diretoria sobre o gravíssimo momento político em que o país vive é devastador para o sindicato. Enquanto a SBPC, a ABC e entidades científicas e profissionais de todas as áreas (até mesmo o Proifes!) advertem seus filiados para o perigo que corremos nesta eleição presidencial, a Apufsc cala e se omite. Ou, no máximo, mia baixinho. Na última manifestação do grupo neste espaço de opinião, apenas o penúltimo parágrafo do texto cita au passant a questão nacional. E a coloca no mesmo nível da disputa eleitoral interna, como se tivessem importância equivalente:
“O sindicato enfrenta hoje dois grAndes desafios: um nacional, com a possibilidade de um retrocesso tão profundo que implicará o enfraquecimento das instituições democráticas e da própria vida sindical, por um longo período; outro local, com práticas tão pouco democráticas e de respeito às regras do jogo que alimentam o retrocesso que se afigura no plano nacional.”
Infelizmente, a briga com a tendência sindical adversária parece ser a prioridade número um da atual Diretoria. Como, no ano passado, foi a eleição para a Reitoria, descuidando a questão dos planos de saúde, o que deu no que deu.
Dizendo isso, não esqueço do que também fez a oposição sindical, com quem briguei muito enquanto estive na Diretoria (embora também reconheça lá muita gente que respeito). O mesmo tipo de prioridade para a luta interna prejudicou muito a Apufsc: o sindicato paralelo que criou, felizmente agora superado, a meu ver foi uma sabotagem horrível. A briga entre as duas posições nunca foi bonita e infelizmente tem se tornado cada vez mais feia. Se antes via desrespeito às decisões da maioria, manobras baixas, truculência e autoritarismo de um lado, agora os enxergo também no outro.
Há meio século, o cansaço com as lutas intestinas entre as tendências de esquerda me tirou da militância estudantil. Agora, o mesmo motivo me afastou da militância na Apufsc.
Mas ainda estou na luta e vem aí o segundo turno de uma disputa entre civilização e barbárie. Espero encontrar nela quem se dê ao respeito. Não há luta mais importante para os professores neste momento.
*Eduardo Meditsch é professor aposentado do Departamento de Jornalismo (JOR/CCE) e foi diretor de Imprensa da Apufsc.
Artigo enviado às 16h16 do dia 16 de outubro de 2026 e publicado às 8h35 do dia 19 de outubro de 2026
