Os Caminhos não Dormem: o furo nas redes e o levante nas ruas

*Por Samuel da Silva Mattos

Olho para a tela do celular e releio a manchete. Falam em convocação, em ordem unida, em um suposto comandante do “Exército do Lula”. O vocabulário das notícias sempre gosta de vestir farda e engraxar coturnos, mesmo quando o assunto é estritamente paisano. Mas vá lá, aceitemos o jargão por um minuto, nem que seja para desarmá-lo com um sorriso de canto de boca. Só me cabe fazer uma observação de calçada, dessas de quem assiste à banda passar na praça: se houve convocação, o alistamento foi bem mais profundo — e infinitamente mais barulhento — do que supõe a vã burocracia dos palanques.

Não bateram continência. O que se viu foi a tradução viva, em carne, osso e pixels, daquela promessa solene que abre a nossa Carta Magna e que merece ser dita na íntegra, sem tirar nem pôr uma única vírgula: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” É o parágrafo único do artigo 1º desenhando o destino do país.

Foram milhões de cidadãos brasileiros chamados por esse eco, convocados pelo legítimo exercício da cidadania ativa. E quando dizemos milhões, falamos de um rio humano que arrastou gerações inteiras no mesmo redemoinho. Viu-se a força desse povo costurada pelo tempo: os netos, com os olhos brilhando diante das telas, emprestando o vigor da juventude aos avós e bisavós, que caminhavam devagar, mas com passos firmes de quem já viu muita história passar e sabe o valor exato de cada pedaço de liberdade. Uma infantaria civil que une a memória calejada dos mais velhos à audácia dos que estão apenas começando a soletrar o país.

Essa gente toda, incluindo aqueles que cruzaram o Atlântico levando a pátria na mala de mão, descobriu que exercer o poder diretamente é ocupar o alcance luminoso do Artigo 2º da Constituição de 1988. E que desfile foi esse! Nada de passos ensaiados, caras amarradas ou marchas fúnebres. O que se viu nas ruas e nas redes foi um carnaval da cidadania: desfiles alegres, coloridos e cantantes, onde o hino tinha ritmo de festa e a farda era a camisa que cada um escolheu vestir. Um exército pacífico, mas barulhento, que furou as bolhas blindadas dos algoritmos e transbordou para o asfalto, unindo o voto de quem está na esquina de casa à saudade de quem vota em Boston, Lisboa ou Tóquio, temperando a política com o banzo do feijão com arroz.

É uma mobilização que lembra, de modo muito oportuno, aquela advertência que nos chega de Moçambique, na voz poética e ancestral de Mia Couto. Do outro lado do oceano, de onde também partem tantos dos nossos mares e mistérios, o escritor nos recorda que os caminhos não dormem. As estradas da história e da democracia não são tapetes estáticos onde se repousa a vitória; são trilhas vivas, que exigem o caminhar contínuo, o vigiar constante dos passos. O povo entendeu esse recado: se os caminhos não dormem, a cidadania também não pode cochilar.

Há de faltar tese de doutorado para explicar tamanho movimento. Daqui a alguns anos, pesquisadores, sociólogos e acadêmicos — engravatados ou não — vão coçar a cabeça diante dos livros, tentando entender como a seriedade da lei se transformou em festa popular de massa, uma ciranda que deu as mãos através das eras e das distâncias.

Se isso é um exército, as armas são a palavra e o riso, o rancho é o café passado na hora e o general é a soberania popular. Que os estrategistas de plantão fiquem com seus mapas e quartéis de papel; o verdadeiro poder prefere andar à paisana, de chinelo de dedo, sabendo que a estrada é longa e as solas dos sapatos — dos netos aos bisavós — estão prontas para continuar marchando.

*Samuel da Silva Mattos é procurador da Fazenda Nacional aposentado, professor de Direito Constitucional da UFSC, advogado, filósofo e cronista do quotidiano.

Artigo recebido às 23h14 do dia 29 de outubro de 2026 e publicado às 8h40 do dia 3 de novembro de 2026