Os porcos no Castelo

*Por Helton Ricardo Ouriques

Nos últimos três anos alguns colegas docentes, ao me encontrarem no café que frequento nos arredores da UFSC, paravam para comentar uma ou outra situação envolvendo o reitor da nossa universidade. Depois de falarem criticamente de tal ou qual atitude (ou não-atitude, o que define melhor a gestão inútil que temos!), invariavelmente terminavam a conversa lembrando que eu tinha razão quando alertava-os da falta de qualidades políticas e capacidade de gestão do atual reitor. Sim, eu tinha razão, mas a pergunta é: como isso que está aí aconteceu? 

Minha hipótese é que o atual reitor, do ponto de vista da figura institucional que representa, é um homem banal, sem as qualidades mínimas e esperadas para o cargo. Talvez tenha sido eleito justamente por isso, pela ausência de qualidades acadêmicas e porque é manipulável. Mas se engana quem menospreza essa situação: há uma simbiose histórica entre “manipulado” e manipuladores, em jogo de ganhos mútuos, em prejuízo dos princípios acadêmicos da universidade. 

O fato é que sua eleição representou a vitória do neoliberalismo na universidade, e mais um degrau, ladeira abaixo, no declínio moral e espiritual da instituição. Até as paredes dos banheiros mal limpos da UFSC sabem que foi decisiva para sua eleição a pauta corporativa das seis horas e do tal trabalho remoto. Ao assumir tal compromisso,  colocou a UFSC refém do corporativismo e deu as costas à eficiência administrativa, aos fins acadêmicos e aos serviços que a UFSC deve prestar à sociedade. Dizendo de outro modo e de forma direta: trata-se de um placebo a serviço do corporativismo e de discursos políticos de grupos que pouco prezam por questões acadêmicas.

Mas não só isso, é claro: a gestão é expressão do completo abandono autoinfligido e da falta de liderança institucional, pois literalmente cada um faz ou não faz o que quer. Neoliberalismo na veia! Então, um dirigente inexpressivo academicamente, que é incapaz de fazer sequer uma fala digna do cargo que ocupa em formaturas, é alçado ao cargo máximo na universidade porque representa o vale-tudo, o sequestro corporativo da instituição e o completo descompromisso acadêmico que impera entre nós. 

E os exemplos do descalabro administrativo são abundantes nos últimos anos: a) desleixo com os espaços físicos, que se deterioram sem manutenção; b) insetos nas refeições do RU; c) falta de água, papel higiênico e sabonete nos banheiros da UFSC; d) parca iluminação noturna, que também é um fator da insegurança, principalmente para as estudantes que precisam circular à noite pelo campus; e) precariedade nos serviços de limpeza, que só pioram. Há lugares, inclusive, em que as janelas estão tão sujas que nem precisamos de cortinas, pois a sujeira já bloqueia a luz solar. Tudo isso virou a norma, e não a exceção. É deprimente ver colegas professoras confessando que trazem papel higiênico de casa, resignadas com a situação absurda que envolve algo tão básico. A decadência atual é tamanha que até coisas elementares, como sabonete líquido e papel higiênico, viraram artigos de luxo.

Mas falemos um pouco também de outras questões mais estruturais, de cunho acadêmico, como os problemas profundos na graduação (e também na pós-graduação). Basta ver a demanda do vestibular e a quantidade de vagas de transferência e retorno disponibilizadas ano a ano. No caso do vestibular 2025, dos 100 cursos ofertados, 38 tiveram um índice candidato/vaga inferior a 1,0 e outros 23 tiveram índice entre 1,00 e 1,99. Ou seja, 61% dos cursos ofertados tiveram uma demanda inferior a 2 por 1 no vestibular (Fonte: COPERVE, Relação candidato/vaga UFSC 2025). No caso das transferências e retornos, os últimos editais a respeito de vagas nessas modalidades mostram uma quantidade expressiva, conforme os Editais disponibilizados pelo DAE/PROGRAD: 5.675 vagas em 2024.1; 6.459 vagas em 24.2; 5.909 vagas em 25.1 e 5.933 vagas em 25.2. Um simples olhar superficial nesses Editais (Edital 38/2023; Edital 32/2024; Edital 55/2025; Edital 110/2025) evidencia a enorme quantidade de vagas ociosas em muitos cursos, passando da metade em muitos casos.  Sobre esses assuntos, reinam a apatia e o silêncio sepulcrais. Fala-se em comissões e comissões, para acompanhamento, mas muito pouco, no sentido de resultados efetivos, de reversão desses quadros, vem sendo implantado. O que se vislumbra, como usual, são resoluções sobre evasão, que apenas cumprem o papel burocrático que já é corriqueiro na universidade. 

Enquanto isso, cada vez mais o tempo dos docentes é destinado a preenchimento de formulários eletrônicos e outras tarefas burocráticas, e muitas dessas atividades estão desconectadas daquilo que efetivamente deveríamos fazer. O Conselho Universitário, saciando o apetite regulador da reitoria, aprova resoluções normativas para tudo. É formulário para tudo quanto é coisa. É o reino da burocracia acadêmica. Tudo é previsto de antemão, mas nada é efetivamente resolvido.

A atual gestão, a rigor, tem como grandes realizações, repito, para pagar a dívida de campanha, somente a pauta corporativa das 6 horas e do “trabalho” remoto. E como obra, várias demolições, a exemplo do prédio-lab da engenharia sanitária localizado nas redondezas do HU e a demolição da sede histórica da Apufsc. Essa última, para mim, expressa no fundo a vendeta do reitor e seu grupo contra os professores, posto que toda sorte de empecilhos para a efetivação da nova sede foram sendo colocados, como noticiado exaustivamente na página do nosso sindicato docente. 

A última façanha da atual reitoria relaciona-se com o imbróglio envolvendo o plano de saúde, cujo resultado implicará em despesas expressivas por parte das pessoas. Afinal, uma coparticipação de 50% é qualquer coisa, menos “sucesso” em uma negociação. O artigo dos professores Sérgio Freitas e Gelson Albuquerque (De emergência em emergência: a incapacidade administrativa que encarece a vida dos servidores da UFSC) é elucidativo da incompetência desta reitoria em lidar com assunto tão sério.

Enfim, o que se assiste, por vezes até passivamente, são problemas que se agravam devido a má gestão. A justificativa de sempre é a falta de recursos, mas no fundo o problema fundamental é o fato de não saberem alocar adequadamente os recursos orçamentários que temos. Algo já desmentido pelo Ministro da Educação em visita recente à UFSC, que ainda fez referência aos R$ 59 milhões do PAC aprovados para a universidade. A pergunta que não quer calar é: onde foi parar esse dinheiro? 

O que assistimos nesses três anos foi uma ladainha sem fim: “a culpa não é nossa”; “vamos montar uma comissão democrática para tratar desse assunto X”, “a culpa é do governo federal”, etc.  Uma narrativa oriunda de quem afirmava que tudo se resolveria com sua suposta gestão inovadora e eficiente! Em resumo, desculpas e mais desculpas foi o que recebemos da turminha da “universidade presente” nos últimos anos.  Ao fim e ao cabo, o salve-se quem puder é o que tem imperado na nossa instituição, que se transformou num barco à deriva. Como eu disse para um dos meus interlocutores, em tom metafórico, quando o mesmo comentou o estado deplorável da estrutura física da universidade: “O que você queria? Quando os porquinhos tomam conta do castelo, é claro que o castelo vira um chiqueiro”.

*Helton Ricardo Ouriques é professor do departamento de Economia e Relações Internacionais (CSE/UFSC)

Artigo recebido às 17h20 do dia 3 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h11 do dia 4 de fevereiro de 2026