*Por Tiago Kramer
Os mais críticos não deixaram de apontar a falta de criatividade no nome das chapas de oposição nas eleições à Reitoria. Quero crer, contudo, que Conhecer é Transformar e Mudar para Transformar são nomes que nascem de um sentimento genuíno. Muita gente testemunhou o desastre administrativo da gestão Irineu em áreas cruciais. A inação diante dos problemas mais urgentes provocou a autoconvocação do Conselho Universitário. Um bom relato sobre o assunto pode ser lido no primoroso texto “#SOSUFSC – A UFSC remendada”, publicado no site da Apufsc (a hashtag no título não poderia ser mais atual).
O bom argumento de que gerir a universidade é mais do que lidar com contratos e dívidas, não autoriza a não fazer o básico. A gestão Irineu se elegeu em meio ao mato que tomou conta da UFSC na pós-pandemia e em um campus Trindade que mais parecia cenário de série pós-apocalíptica.
A chapa do prof. Irineu, com a profa. Joana de vice, se apresentou como solução sob um governo de extrema direita. Irineu, agora, nos últimos dias de sua gestão, já sem a vice, atira contra o governo federal de centro-esquerda, culpa Lula e Haddad por tudo. Reproduz as mesmas práticas clientelistas e pouco republicanas de gestões anteriores (localmente batizadas de rodolfismo) e mantém no quadro de cargos de direção, e entre seus apoiadores, gente conversadora e de direita (o que não seria problema, não fosse uma contradição no discurso do próprio reitor e de seus apoiadores). O discurso anti-Lula e anti-Haddad justifica todas as falhas e ganha eco nos setores mais radicais da esquerda.
De expressão eleitoral nula fora das universidades, essas correntes políticas atraem um bom número de ECEEs (Estudantes e Coletivos de Extrema Esquerda). Esses estudantes estão cheios de energia para alimentar seus sonhos de revolução e, também, para fazer campanha e influenciar na adoção de formatos de votação em que possam exercer mais influência.
Incapaz de dar conta do básico, a gestão Irineu se mostrou muito capaz de ampliar sua base de apoio. É certo que perdeu a vice-reitora e o grupo de que ela faz parte. Perda significativa, tendo em vista que provoca uma cisão na base de esquerda (da extrema ao centro).
Ainda assim, o prof. Irineu conseguiu trazer muita gente nova, incluindo um dos seus principais críticos, o prof. Rodrigo Moretti, agora seu companheiro de chapa. É preciso reconhecer que temos, em alguns postos, novos e competentes quadros, mas mesmo esses sofrem com a falta de comando e direcionamento da reitoria (uma estratégia, não uma fraqueza) e com a falta de competência de seus colegas de gestão.
A maior cartada eleitoral do prof. Irineu foi em relação a uma parte significativa dos TAEs. Durante a última greve, a UFSC foi a única entre as mais bem ranqueadas universidades federais a paralisar completamente as matrículas da graduação, o que afetou particularmente os alunos cotistas. A reitoria abdicou das suas responsabilidades para se somar ao comando de greve, consolidando uma simbiose (os mais críticos chamariam de peleguismo) entre direção do sindicato e reitoria. Enquanto isso, muitos TAEs, sobretudo nas Unidades de Ensino, mesmo em greve, continuaram com atividades básicas para que a universidade não colapsasse.
O golpe de mestre, contudo, foi o de instituir o teletrabalho de maneira generalizada e atabalhoada. Qualquer crítica colocada pelos conselheiros do CUn foi recebida com vaias e muita agitação por uma plateia habilmente utilizada de para-choques pela Reitoria em reuniões abertas, nas quais, propositalmente, o debate e a apresentação de destaques e propostas foram inviabilizados.
Os que focam na personalidade do prof. Irineu para desqualificá-lo são incapazes de perceber quão astuta é a sua estratégia de a todos ouvir, decidir com muita demora (e após muitas reuniões) e jogar a batata quente para outro colo.
Ao conceder espaços institucionais, de debate e de deliberação por pares, para todo o tipo de manifestação, constrangimento e inflamação de ânimos, o reitor soube direcionar para longe de si as principais críticas.
Os opositores da velha guarda, de maneira geral, caíram na armadilha e deixaram, por ação ou por omissão, a carapuça de pedante, arrogante, elitista e conservador servir sem falta nem sobra. Foi vexatória a postura de uma parte da oposição no episódio da retirada da homenagem ao ex-reitor que comprovadamente colaborou com os órgãos de repressão da Ditadura Militar.
O prof. Irineu não precisa vencer entre os docentes. Além disso, ele possui uma diversificada base de ACGs (Apoiadores com Cargo de Gestão) dispostos a panfletar, usar camisetas, passar de sala em sala, de departamento em departamento. Ele consegue mobilizar sua base (a parte mais conveniente a cada interlocutor) para responder publicamente todo tipo de crítica.
A tomada de iniciativas importantes, no formato de resoluções, aprovadas pelo CUn, serve de troféu a movimentos e coletivos que acreditam ter protagonizado a formulação de políticas institucionais. Encobre-se, contudo, o fato de a gestão raramente ter competência em fazê-las cumprir de modo eficaz e ágil.
Assim como as infiltrações a demonstrar que nossos prédios não tiveram a manutenção adequada, os danos da incompetência da gestão Irineu já começam a aparecer na pesquisa, na extensão e no ensino de graduação e pós-graduação.
Há quem pense que para mudar não é necessário substituir o atual reitor. A mudança pode vir com novos apoios e aperfeiçoamento na gestão. É o argumento de quem procurou alternativas para a oposição e julgou não encontrar nada melhor. É difícil julgar de forma impiedosa essa mudança de posição. Afinal, quando o que há de mais repugnante (no campo das ideias e da política) se manifesta de um lado, é inevitável estar mais à vontade na proximidade do adversário de outrora. Contudo, o que nos garante que essas pessoas, que nos pedem um voto de confiança, não deem com os burros n’água como os antigos apoiadores? Com todo respeito a esses colegas, parece uma aposta muito arriscada.
Das chapas de oposição podemos apontar, no melhor estilo Choque de Cultura, os pontos positivos e os pontos negativos (até o presente momento).
Pontos negativos, em comum: 1) não apresentaram propostas concretas para lidar com problemas administrativos, gerenciais e de infraestrutura cotidianos; 2) Não se abriram, já na pré-campanha, a contribuições e apoio de pessoas dispostas a colocar o dedo na ferida, apontando contradições e limitações, ideológicas e programáticas.
A chapa Mudar para Transformar tinha tudo para ser a favoritaça. De base diversa, da centro-esquerda à direita, há ali pessoas reconhecidamente competentes e com trajetórias que afastariam qualquer receio quanto a defesa da democracia e da UFSC diante de políticas de destruição da universidade, como aquelas propostas pelo governo Bolsonaro e reunidas no escabroso Future-se. Mas, talvez pelo clima de já ganhou, a escolha foi por uma proposta politicamente vazia, com um candidato a CEO da UFSC, que promete levar a eficiência acadêmica para a gestão universitária.
Não há dúvida de que dar conta do básico e melhorar os instrumentos de gestão faria a gestão Amir muito superior à que temos hoje. Precisamos de uma gestão competente para, por exemplo, fazer com que a política de ações afirmativas funcione melhor, sem os constantes atrasos, perdas de vagas e até equívocos em sua aplicação. Hoje a UFSC não possui competência em manter e negociar contratos para as coisas mais básicas, incluindo o plano de saúde de seus servidores.
Ao que parece, a candidatura do prof. Amir terá considerável êxito entre os docentes da instituição. Também deve ter algum êxito com os TAEs, pois se trata de uma categoria muito diversa e complexa. Há os que estão longe da mesa do rei, não possuem cargos de direção e que carregam o piano, presencialmente, nas coordenações, departamentos e unidades de ensino.
Há os que, mesmo nos setores diretamente ligados à Reitoria, estão submetidos a superiores que não fazem um bom trabalho. Há os estão na mesma posição de poder há décadas e que não temem perder seus cargos.
Amir ainda poderá contar com votos de estudantes das unidades de ensino em que atuam os membros do grupo com mais penetração eleitoral nos cursos de graduação e pós-graduação. Há grandes chances, portanto, de que a chapa esteja no segundo turno das eleições.
Um ponto positivo é a adoção da defesa pública do método mais inclusivo de votação, sem tergiversações. Resta provar aos eleitores que essa posição é mesmo fruto de uma postura democrática e não um cálculo meramente eleitoral.
Ao exalar o mau cheiro do bolsonarismo de parte de sua base, até agora mal disfarçado pela fajuta fragrância do “respeito a posições políticas divergentes”, o prof. Amir corre o risco de perder para o prof. Irineu em um segundo turno. E não há vice que dê jeito, por melhor que ela seja, e a profa. Felipa apresenta uma trajetória com muitos destaques positivos.
A experiência recente demonstrou que escolher uma chapa pela vice não é uma boa. E quanto mais alguns de seus apoiadores repetem o frágil argumento de que a ameaça da extrema direita é uma fantasia e que não há o que temer, mais votos serão perdidos. O que era já ganhou pode se transformar em um grande eu já sabia.
Faria muito bem, portanto, a adoção de uma postura enérgica contra a extrema direita. Além de um equívoco brutal de interpretação, é uma péssima estratégia de campanha equiparar os movimentos estudantis de jovens radicalizados à esquerda com a extrema direita que disputa a hegemonia política no país e é hegemônica em Santa Catarina.
A outra opção de mudança é a chapa liderada pelo prof. João. Dos três candidatos é o que parece mais preparado. Foi reitor em outra instituição federal, presidente da Andifes e conhece bem a UFSC. Seu discurso é sereno, firme e moderado. Não deixa de criticar a política de financiamento das universidades, mas não adota uma postura anti-Lula e anti-PT.
No entanto, há limitações muito evidentes em sua base de apoio. João faz parte do grupo que apeou da gestão Irineu. A demora para tomar posição e deixar o cargo dá margem para a disseminação de acusações de oportunismo. O grupo permaneceu fechado, sua vice, a profa. Luana, também ocupou cargo na gestão Irineu.
Em relação ao apoio estudantil, o grupo insiste em colocar na linha de frente movimentos estudantis que estão longe de representar o que pensam a maioria dos estudantes, muito mais moderada e pragmática. Alunos do período noturno, do EaD, da pós-graduação, que participariam em número muito maior fosse a eleição on line, são deixados de lado. Apoiadores admoestam os que defendem a maior participação estudantil, enquanto fazem vista grossa à intervenção do reitor atual afim de restringir a participação nas eleições ao voto presencial.
O grupo disputa, com a atual gestão, os votos dos professores de esquerda (desde os mais moderados até os que sonham em levantar as massas para uma revolução socialista), os votos de estudantes militantes de esquerda e, com o prof. Amir, disputa os votos dos TAEs que não votarão em Irineu. A última vez que presenciei uma base tão pequena de apoio foi na tentativa frustrada de reeleição da profa. Roselane (em quem, aliás, votei naquela oportunidade).
No entanto, se a candidatura do prof. João ampliar sua base de apoio e chegar ao segundo turno, a chance de vencer é exponencial. João, certamente, é o menos rejeitado dos candidatos, ainda que precise mostrar de forma gráfica o que fará de diferente daquele que foi seu chefe até outro dia. Para os mais pragmáticos, que não querem de jeito nenhum a continuidade da gestão Irineu, um voto útil na chapa Conhecer é Transformar parece uma alternativa racional e consequente.
Apesar do pouco tempo até as eleições, ainda há água para rolar por baixo da ponte. O contexto exige de nós cabeça fria e pragmatismo, pois é o futuro da instituição que está em jogo. Não podemos deixar que a eleição se transforme em uma baixaria digna de Casos de Família, com discussões sobre traições, falhas de caráter, ataques pessoais e ressentimentos.
No tempo que resta para decidirmos qual a melhor opção para a reitoria, talvez seja oportuno refletirmos sobre a distância entre a UFSC ideal e o que a UFSC necessita neste momento. E pensar sobre como podemos contribuir para que ela mude, mesmo que de forma limitada pelas circunstâncias adversas, para melhor.
*Tiago Kramer é professor do Departamento de História da UFSC
Artigo recebido às 20h09 do dia 16 de março de 2026 e publicado às 11h45 do da 17 de março de 2026.
