Sobre o ódio e a falta de civilidade na derrota

*Por Fábio Lopes

Of courtesy, it is much less
Than courage of heart or holiness,
Yet in my walks it seems to me
That the Grace of God is in courtesy”.

Hilaire Belloc

Desde que fui admitido como docente na UFSC – isso em 1994 –,  participei ativamente de todas as eleições para reitor. Amir & Felipa foram a primeira candidatura que apoiei em primeiro turno a sair vitoriosa das urnas.

Tantas derrotas sucessivas jamais me impediram de, a cada vez,  retornar entusiasmadamente ao trabalho nem de continuar a me envolver reflexivamente no debate sobre os destinos da UFSC. 

Por isso, foi particularmente chocante para mim testemunhar a campanha da chapa oficial em 2026. Nunca vi nada parecido com aquilo nos 32 anos em que leciono na universidade. Os vídeos e outras peças de marketing do atual reitor e seu vice – eivados de ódio e emoldurados por uma estética resolutamente fascista – eram de uma agressividade atroz, sôfrega, quase demoníaca. 

Em política, vencer costuma ser muito mais raro do que ser vencido. Daí que a grande arte na democracia não é saber ganhar mas aprender a perder com dignidade e elegância.

O que se viu no comportamento de nossos adversários foi o exato contrário disso. Quando perceberam que a proverbial vaca ia mesmo para o brejo, eles foram para o tudo ou nada. Queimaram todos os navios. Explodiram todas as pontes. 

O atual reitor, a meu juízo, tem muitos defeitos, mas uma coisa não se pode negar a ele: é um homem cordial e pacífico a ponto de encarnar uma incômoda passividade. Não entendo até agora por que ele aceitou que, justo na última quadra de sua carreira, o transformassem em um personagem grotesco a berrar disparates e impropérios contra Amir & Felipa e seus apoiadores.

Já do seu vice nunca esperamos simpatia e cavalheirismo. O fato, contudo, é que mesmo este surpreendeu pelo grau de destempero e despreparo. Pior: à diferença de Irineu – que se recolheu a um vexado silêncio após a derrota –, o jovem colega dobrou a aposta e segue atacando a chapa vencedora com acusações ridículas de que representamos a direita e a extrema direita. Seus olhos rútilos e a voz perturbadoramente rouca transpiram ressentimento e raiva.

Imagino que seja duro perder uma eleição sendo atropelado por 71% dos votos docentes e tomando uma surra em seu próprio centro de origem. Ter que, além disso, ruminar a rejeição de 65% dos estudantes tampouco deve ser fácil. Mas trocar a meditação sobre esses dados por um discurso destrambelhado que semeia sentimentos de vingança e divisionismo é de uma imaturidade e uma irresponsabilidade sem tamanho.

Se ele tivesse vencido, o que pretendia fazer com a terra arrasada que produziu na esteira de seu rancor militante? Perder a eleição, em todo caso,  deixa tudo o que fez e segue fazendo ainda mais feio.

O contraste entre sua conduta e a classe, a elegância e a discrição de Amir & Felipa é impressionante. 

Uma foto feita pela turma da Agecom resume bem o abismo que hoje separa as candidaturas. Nela o reitor eleito está diante do candidato derrotado. Era para ser um flagrante da cena em que o Prof. Irineu cumprimentaria o Prof. Amir pela vitória. Mas o que surge diante de nós é outra coisa: Amir envolve o atual reitor em um abraço fraternal ao mesmo tempo em que olha com profunda empatia e humanidade para seu rosto devastado. Ser magnânimo – Magnífico – na vitória é uma prova suprema de caráter. 

Agora que tudo acabou (e a miséria da campanha da chapa oficial se revelou em toda a sua exuberância), resta concitar os inconformados a interromperem esses ataques despropositados e grosseiros a Amir & Felipa. Apenas parem de insuflar a violência. Tenham um mínimo de respeito pela enorme quantidade de eleitores à esquerda que confiaram seus votos a Amir & Felipa. Tenham um mínimo de respeito pela tradição esquerdista na UFSC, que, com seus erros e acertos, nunca chegou nem perto de investir desse jeito contra a institucionalidade e a decência. Tenham um pouco de consideração e compaixão por seus próprios eleitores de perfil mais sóbrio ou conservador, que não merecem ter sua imagem associada a essa insanidade. Basta dessa antipedagogia. Chega dessa deseducação cívica e política da juventude que temos o dever de formar.

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 8h34 do dia 19 de abril de 2026 e publicado às 8h01 do dia 22 de abril de 2026