*Por Waldir Rampinelli
A filha de criação – e olha que a palavra criada vem daí – é uma forma de produção que equivale a semisservidão. Ela se dá sob coação e o resultado do trabalho é expropriado pelo patrão. A família pobre entrega sua filha a uma rica, sob um acordo tácito, mas efetivo, em troca de comida, roupa e teto para a menina, que por sua vez, deverá trabalhar de sol a sol para pagar o recebido. Não há remuneração salarial, mas sim espécie: um sistema semelhante ao escravista patriarcal.
A filha de criação não tem acesso à escola, já que todo o seu tempo é dedicado ao trabalho. Também é imposto a ela uma atitude de silêncio, de submissão e de obediência, calcada na ideia de que deve favor a seus patrões. Não possui direito ao sobrenome da família, à herança, ao afeto e ao carinho. Muitas vezes, o abuso sexual da filha de criação, à semelhança das antigas escravas, se dá como extensão da exploração econômica e da dominação política.
Tal crueldade sacudiu tanto o mundo que duas obras clássicas tratam do tema marcando a literatura universal: Os Miseráveis de Victor Hugo com sua Cosette, filha criada para os afazeres domésticos de uma estalagem, e O Capital de Karl Marx, que denuncia a utilização da mão de obra de menores nas pesadas e insalubres minas e fábricas inglesas.
A prática de filhos e de filhas de criação se deu, por aqui, com a chegada dos europeus, mais especificamente com os imigrantes italianos. Após cada massacre indígena, se traziam os pequenos para serem “civilizados” e “educados” nas casas dos colonos ou nos conventos de religiosos, domesticando-os para as tarefas do dia a dia.
Pouco tempo viviam os sequestrados nesses verdadeiros campos de concentração. Com o extermínio dos povos originários, a busca por meninos e meninas continuou, mas só que agora nas etnias consideradas inferiores, tais como os negros, os “baiécos”, os “pelos duros”.
Três saídas restam a uma filha de criação para se livrar da opressão: o casamento, ou a fuga, ou a baixa produtividade no trabalho na expectativa de que seja expulsa da família. Esta expropriação, seguida da apropriação, vai da infância à vida adulta, e duas instituições têm apoiado esse tipo de trabalho: O Estado e a Igreja.
O Estado o permite por considerá-lo economicamente vantajoso e por entender que determinadas tarefas estavam exclusivamente ao alcance das crianças, tais como, atravessar por estreitos túneis em busca de minerais preciosos, movimentar seus pequenos dedos para tecer tapeçarias especiais ou montar mulas para tropear o gado em descidas apertadas e íngremes.
Assim se dá a acumulação passando por cima de corpos minúsculos e frágeis que vão se desfazendo ao longo do caminho. “Enquanto estão em seus afazeres diários não cometem furtos nas ruas”, repetem sem pudor os governantes.
A Igreja abençoa essa vergonha infantil com argumentos de ordem religiosa e moral, quer estendendo aos padrinhos e “pais adotivos” a prática do filho de criação, quer afirmando que o trabalho dignifica a pessoa, não importa a idade. Desse modo, permite que os gananciosos sigam seus caminhos com suas consciências tranquilas, completamente tranquilas.
Por isso, nenhum gesto de doçura apagará os sinais dessa violência. A filha de criação só se livra dessa neurose demandando o seu explorador. Caso contrário, com o passar do tempo, essa subjugação psicológica, cultural e física se impõe de tal maneira para a oprimida que, se o opressor ameaça abandoná-la, ela entra em desespero, pois perde sua referência e pensa que poderá voltar aos tempos de miséria vividos na sua família biológica. A noite do retorno a apavora porque perdeu seu chão.
Apenas um país no mundo proibiu a exploração dos filhos de criação: a Rússia revolucionária de 1917. Por lá, se acabou com a exploração dos filhos de criação porque se tocou na origem do problema, permitindo-se a união livre, a emancipação da mulher, a socialização das tarefas domésticas e a desaparição da instituição familiar como principal fundamento da organização social. O Código de Direito da Família, de 1918, rompeu drasticamente com as prescrições patriarcais e as restrições religiosas, proclamando uma nova era de liberdade. Proibiu-se, por exemplo, que as crianças órfãs fossem criadas por qualquer pessoa, já que em uma sociedade predominante camponesa se temia, e com razão, que elas passassem a ser usadas em trabalhos não remunerados. Desse modo, o Estado chamava para si a educação e os cuidados de todos esses desamparados.
A união livre tirava também da Igreja o poder de celebrar e manter o matrimônio como uma instituição inquebrantável, sustentada pelo princípio de que o vínculo deve perdurar “até que a morte os separe”. Homens e mulheres passaram a viver em total liberdade na escolha de seus parceiros, podendo divorciar-se a qualquer momento, de acordo com suas decisões pessoais, sem prestar contas a alguma entidade religiosa. A Rússia foi o primeiro país do mundo a legalizar o aborto.
O trabalho doméstico não remunerado – fazer comida, lavar roupa, limpar a casa, cuidar da horta, ordenhar as vacas, atender crianças ou idosos –, realizado basicamente pelas mulheres, foi socializado e transferido para a economia em geral, sendo feito por gente assalariada. Desse modo, elas ficavam livres das penosas dificuldades de combinar as tarefas do lar com a função paga, permitindo sua participação na esfera pública em condições igualitárias aos homens. Os restaurantes comunitários, as lavanderias estatais, as creches e escolas coletivas por exemplo, tiraram as camaradas dos afazeres de suas casas.
No livro Filha de Sol a Sol conto a história de uma filha de criação, de forma ficcional, lembrando que toda ficção é real, segundo Ernesto Sábato. Mário César Coelho, que é desenhista e artista, ilustra o livro com seus traços geniais, fazendo a história saltar aos olhos do leitor, que não apenas lê, mas vê o quotidiano da menina. A Editora Insular é a produtora do trabalho com capa e diagramação de Hanna Boassi. O livro será lançado no dia 24 de abril, no Palácio Cruz e Sousa, centro de Florianópolis, das 19h até as 22h. O evento é aberto ao publico.
*Waldir Rampinelli é professor aposentado do departamento de História da UFSC e ex-diretor da EdUFSC
Artigo recebido às 8h39 do dia 22 de abril de 2026 e publicado às 9h12 do mesmo dia
