*Por Grazielly Alessandra Baggenstoss
Vivemos um momento histórico com múltiplas mudanças nas universidades públicas. A precarização material das instituições, expressa em cortes orçamentários, sobrecarga de trabalho, perda de infraestrutura e instabilidade das carreiras, ocorre simultaneamente a uma mudança profunda na forma como a sociedade produz, consome e legitima conhecimento.
Durante muito tempo, a universidade ocupou um lugar privilegiado como espaço de produção de saberes e formação de autoridades intelectuais. O professor, a pesquisadora e o cientista eram reconhecidos socialmente como figuras que dedicavam anos de estudo à construção de conhecimento rigoroso. Hoje, entretanto, esse lugar tornou-se cada vez mais disputado. Novas autoridades emergem nas redes sociais, especialmente por meio de youtubers, influenciadores, coaches e criadores de conteúdo que alcançam milhões de pessoas diariamente. Muitos deles passam a ocupar posições de referência sobre temas complexos sem necessariamente percorrer os mesmos processos de formação, validação e crítica que caracterizam o trabalho acadêmico.
Ao mesmo tempo, a ascensão dos grandes Modelos de Linguagem introduz uma nova camada de transformação e instabilidade. O acesso instantâneo à informação produz a sensação de que conhecer e aprender são processos equivalentes a encontrar respostas rápidas. A disponibilidade permanente de conteúdos, resumos e explicações parece reduzir a necessidade do esforço intelectual que historicamente constituiu a experiência da formação. Nesse contexto, o conhecimento torna-se cada vez mais acessível, enquanto a disposição para sustentar a dúvida, a investigação e o aprofundamento frequentemente se enfraquece.
Em tal panorama, a crise da universidade ultrapassa os limites da gestão institucional ou das condições de trabalho. Esse conjunto de fatores envolve uma mudança cultural mais ampla, na qual a autoridade científica é contestada, os critérios de legitimidade do conhecimento são redefinidos e a própria vontade de aprender parece ceder espaço à busca por respostas imediatas, reconhecimento instantâneo e consumo acelerado de informações.
Os efeitos desse processo não afetam apenas as instituições, obviamente. Alcançam também aqueles que construíram suas identidades em torno da produção e da produção e compartilhamento do conhecimento. Isso porque, quando a sociedade altera sua relação com o saber, transforma-se igualmente a posição subjetiva daqueles que fizeram da educação, da pesquisa e do ensino não apenas uma profissão, mas uma vocação e uma forma de existir no mundo. Assim, aqueles colegas e aquelas colegas que estão resistindo, de alguma forma, às mudanças objetivas e intensas desses tempos, não o fazem por indisposição ou retrocesso; há uma questão vital envolvida nesse processo.
Durante nossa vida acadêmica, a universidade é território onde construimos as nossas carreiras, e, principalmente, onde constituímos nossas identidades.
Durante anos, uma pessoa aprende a interpretar sua própria existência a partir de determinados marcos. Primeiro a aprovação no vestibular, depois a graduação, o mestrado, o doutorado, os artigos, os congressos, as orientações, a sala de aula. Cada etapa não produz apenas competência técnica. Produz uma narrativa sobre si mesmo. Aos poucos, a pergunta “o que eu faço?” vai se confundindo com a pergunta “quem eu sou?”. Por isso, quando a universidade sofre um processo de precarização ou de perda de legitimidade social, o efeito não é equivalente ao de qualquer outro ambiente de trabalho. O que está sendo atingido não é apenas uma função profissional. É uma estrutura psíquica que organizava o sentido da própria vida.
Winnicott observava que a identidade se desenvolve quando o ambiente oferece sustentação suficiente para que o sujeito experimente continuidade. A sensação de ser alguém depende, em parte, da experiência de habitar contextos que reconhecem nossa existência e nosso valor. Quando o ambiente deixa de oferecer esse reconhecimento, surge uma experiência de ruptura. Não se trata apenas de tristeza ou frustração. Surge uma pergunta mais radical: “ainda sou quem acreditava ser?”
Essa pergunta aparece frequentemente em momentos históricos de transformação institucional. O indivíduo descobre que sua identidade estava mais vinculada a determinadas estruturas sociais do que imaginava.
A academia sempre ofereceu algo muito valioso: uma promessa de reconhecimento baseada em conhecimento, rigor e dedicação. Era uma promessa que dizia, implicitamente: “Se você estudar, pesquisar, produzir e ensinar, seu trabalho terá relevância social.” É o que fala a tradição Beruf também. Muitas pessoas organizaram décadas de suas vidas em torno dessa promessa. Quando essa promessa enfraquece, não é apenas a instituição que entra em crise; a nossa subjetividade também. E isso é algo para o que Max Weber não me alertou em “A Ciência como Vocação”.
Existe uma contribuição interessante da psicanalista Jessica Benjamin para compreender esse fenômeno. Ela argumenta que o reconhecimento não é um luxo psicológico; é uma necessidade constitutiva. Nós nos tornamos sujeitos através da experiência de sermos vistos por outros como sujeitos. Não basta saber quem somos internamente. Precisamos encontrar um mundo que responda à nossa existência.
A professora continua sabendo o que sabe. O pesquisador continua produzindo conhecimento. A cientista continua possuindo a mesma formação. Mas o retorno simbólico vindo do mundo muda drasticamente. A autoridade que antes era reconhecida passa a ser questionada, ignorada ou colocada em equivalência com formas de conhecimento produzidas em contextos completamente distintos.
Aquela autoridade parece (parece!) não existir mais em um campo simbólico que não nega diretamente a existência do sujeito, mas age como se essa existência tivesse se tornado irrelevante. Talvez por isso falar em vocação seja tão importante aqui: vocação é uma forma de investir afeto em uma posição no mundo.
Vocação é acreditar que existe um encontro possível entre aquilo que se ama fazer e aquilo que o mundo necessita. É isso que nos enraíza. Quando isso muda, a experiência subjetiva se transforma porque o significado dessas funções mudou.
O valor do reconhecimento subjetivo talvez precise encontrar fundamentos mais amplos do que o lugar institucional. A identidade talvez precise se apoiar em algo maior do que a validação oferecida por uma estrutura específica. É lógico que nada disso elimina a violência política e institucional da desvalorização da universidade. O nosso sofrimento possui causas concretas, materiais e históricas. Mas existe também uma dimensão subjetiva que merece atenção: a perda de reconhecimento atinge aquilo que fazemos e a maneira como aprendemos a existir.
Aí como continuar em uma vocação quando o mundo já não a reconhece da mesma forma? Essa é uma questão sobre trabalho, mas também sobre identidade, pertencimento e sentido; é uma questão que produz tanta raiva, tanta tristeza e tanta sensação de desorientação para alguns colegas (outros, já tomaram o trem de outras propostas mais neutralizadoras e anestesiadas). É aqui onde, mesmo com todo cuidado para não vivenciarmos uma instituição totalizante, que a profissão e subjetividade se tornaram praticamente inseparáveis.
*Grazielly Alessandra Baggenstoss é professora do Departamento de Direito e do Programa de Pós Graduação em Psicologia da UFSC
Artigo enviado às 17h14 de 16 de junho e publicado às 8h44 do dia 17 de junho de 2026
