Longe da base, perto do poder

*Por Lucas Nicolao

Na segunda-feira, dia 6 de julho, tomaram posse o reitor e a vice-reitora eleitos. Junto com a posse, foram nomeados os colegas que assumem cargos na nova gestão. Para o cargo de assessor institucional da Reitoria foi nomeado o presidente do nosso sindicato. Ao mesmo tempo, a diretoria do sindicato divulga que ele deve continuar em exercício, com a vice-presidente representando a diretoria como se o presidente estivesse, de fato, afastado da universidade – uma mentira que exige a cumplicidade de toda categoria filiada. Assim, temos o curioso caso de ter como patrão o presidente do nosso sindicato. 

Primeiramente, o fato de ele continuar como presidente claramente fere o estatuto – o que, infelizmente, não é nenhuma novidade para a atual gestão da Apufsc-Sindical. A naturalidade com que a diretoria descumpre o estatuto demonstra vivência e a certeza da impunidade. Em segundo lugar, o fato permite questionar quais eram as intenções das atuações do sindicato nos últimos anos. Para se limitar apenas às assembleias dos últimos dois anos, sobre a nova sede e o plano de saúde, elas sempre tiveram a reitoria como personagem principal – a de vilã. Finalmente, e este é, para mim, o principal aspecto que quero tratar aqui, ter um patrão como presidente sindical é bastante sintomático da função que tem sido dada ao nosso sindicato. 

Para ilustrar, em uma das primeiras assembleias para tratar da nova sede, havia mais diretores e ex-diretores de centro do que colegas da base entre os presentes. Além disso, o documentário “Meio Século de Lutas” recentemente lançado pelo sindicato, e que curiosamente deixa de fora a última grande luta da categoria (a greve de 2024), culpabiliza o jovem docente pelo desinteresse no sindicato. É o contrário: é o sindicato que não se interessa pela sua base, inclusive pelo jovem docente. Já faz tempo que o sindicato não está presente no dia a dia dos docentes desta universidade. 

O que há para fazer no dia a dia da categoria docente na universidade? Muito! Vemos a categoria sobrecarregada, com tarefas pulverizadas, que preenchem muito mais do que horas razoáveis de trabalho. Cada colega acaba muitas vezes atuando individualmente, se desdobrando para, frente a todas demandas, manter um projeto que lhe é caro, seja no ensino, na pesquisa, na extensão ou na administração. Precisamos nos enxergar como semelhantes que somos e conversar sobre a sobrecarga laboral. Para conversar livremente sobre isso, e poder elaborar sobre as mazelas do nosso trabalho, não podemos fazê-lo em um colegiado ou no Conselho Universitário. Precisamos do espaço e da intermediação do sindicato. 

Por exemplo, em vez de se aproximar dos dramas políticos de um ex-diretor de centro ou de usar a estrutura sindical para tentar deslegitimar o Conselho Universitário, o sindicato precisa estar próximo dos dramas de um docente ingressante que precisa subitamente dar conta de um estranho ecossistema burocrático, ou de uma docente que precisa realizar um trabalho administrativo multiplicado pela ausência de servidores TAEs. Essa aproximação não passa necessariamente pelo assistencialismo; trata-se de uma prática de troca de experiências e busca por soluções através da coletividade, integrando diferentes gerações da categoria

docente, incluindo os colegas aposentados. Para isso, precisamos abandonar este modelo de sindicato vertical e adotar o diálogo contínuo com a base como princípio norteador, um sindicato horizontal. 

A amplitude de soluções para nossos problemas laborais está na pluralidade da nossa categoria, a ser contrastada com a hegemonia de uma década do mesmo grupo político à frente do sindicato tomando decisões em nome de todos nós, muitas vezes guiadas por interesses nada coletivos. Enfim, precisamos virar a página e passar pela prática de uma nova experiência sindical na Apufsc.

*Lucas Nicolao é professor do CFM/UFSC

Artigo recebido às 7h56 do dia 17 de julho de 2025 e publicado às 12h25 do mesmo dia