Ao todo, aproximadamente 250 hectares de campos de altitude passaram pelo manejo
Um projeto de pesquisa realizado pelo Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração Biodiversidade de Santa Catarina (PELD-Bisc) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), alcançou mais um importante resultado prático para a conservação ambiental. Pela primeira vez em sua história, o Parque Nacional de São Joaquim colocou em prática o Manejo Integrado do Fogo (MIF), uma estratégia construída com base em pesquisas desenvolvidas ao longo de mais de uma década. A iniciativa científica é uma parceria da UFSC com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia AdaptaVeg (INCT AdaptaVeg).
As ações ocorreram entre os dias 1º e 11 de julho. Mais do que uma operação de prevenção de incêndios, a iniciativa demonstra como o conhecimento científico produzido na universidade pode orientar políticas públicas e transformar a forma de conservar ecossistemas altamente ameaçados. Além da pesquisa científica, a atuação da UFSC também esteve presente na aproximação entre ciência, gestão ambiental e comunidade local.
Durante a operação, pesquisadores participaram de encontros com moradores da Serra Catarinense para esclarecer dúvidas sobre o Manejo Integrado do Fogo, apresentar resultados científicos e discutir o uso tradicional do fogo nos campos de altitude. O diálogo permitiu aproximar diferentes formas de conhecimento. Enquanto moradores compartilharam experiências acumuladas ao longo de gerações no manejo das áreas de campo, pesquisadores apresentaram evidências científicas que explicam como o fogo, quando utilizado de forma planejada e autorizada, pode contribuir para conservar a biodiversidade e reduzir o risco de incêndios catastróficos.
A iniciativa também buscou desfazer uma percepção comum de que todo fogo representa necessariamente um impacto ambiental negativo. Nos ecossistemas campestres, diferentemente das áreas florestais, o fogo faz parte da dinâmica ecológica natural, desde que aplicado em condições técnicas adequadas. O Plano de Manejo Integrado do Fogo do Parque Nacional de São Joaquim foi elaborado em 2023. O documento orientou todas as atividades realizadas durante a operação, que incluiu a abertura de aceiros, o monitoramento das condições meteorológicas e a realização de queimas prescritas em áreas previamente planejadas e acompanhadas por equipes especializadas.
Ao todo, aproximadamente 250 hectares de campos de altitude passaram pelo manejo, uma área que representa menos de 2% da unidade de conservação, mas que tem papel estratégico na redução do material combustível responsável pela propagação de incêndios de grandes proporções. A implementação do Manejo Integrado do Fogo é resultado de anos de pesquisas conduzidas nos campos de altitude da Serra Catarinense. Os estudos desenvolvidos por pesquisadores da UFSC e de instituições parceiras vêm demonstrando que o uso planejado e controlado do fogo, associado ao pastejo extensivo, contribui para a manutenção da biodiversidade e reduz o acúmulo de biomassa seca, principal combustível dos incêndios severos.
As pesquisas também mostram que a exclusão completa do fogo favorece o avanço de arbustos sobre os campos naturais, processo conhecido como vassoural, reduzindo a diversidade de espécies e aumentando o risco de queimadas mais intensas. Para o pesquisador Rafael Barbizan Sühs,a experiência realizada no parque simboliza a consolidação de um processo iniciado há mais de dez anos. “O que está acontecendo no Parque Nacional de São Joaquim é um exemplo concreto de como a pesquisa científica pode orientar a gestão ambiental. Há mais de uma década desenvolvemos experimentos com o uso do Manejo Integrado do Fogo, produzindo evidências que hoje subsidiam ações de conservação”.
A operação reuniu equipes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), pesquisadores da UFSC, do PELD-Bisc e do INCT AdaptaVeg, além de Agentes Temporários Ambientais e moradores da região. As atividades foram conduzidas sob rigorosos protocolos técnicos, incluindo análises de vento, temperatura, umidade da vegetação e quantidade de material combustível antes de cada queima prescrita. Segundo a equipe responsável, toda a operação ocorreu sem perda de controle ou registros de situações de risco.
Para o gestor do Parque Nacional de São Joaquim, Paulo Santi, a implementação do Manejo Integrado do Fogo representa um novo modelo de conservação baseado na integração entre pesquisa científica, gestão pública e participação social.
Fonte: Notícias UFSC
