Consequências dessas ações atingem sobretudo as mulheres e outros grupos socialmente vulnerabilizados
Com o objetivo de compreender as percepções, experiências e desafios relacionados à violência de gênero no cotidiano da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Coordenadoria de Diversidade Sexual e Enfrentamento das Violências de Gênero (CDGen/Proafe) realizou um levantamento com servidores docentes e técnico-administrativos em Educação (TAEs) da universidade. De acordo com o relatório, divulgado no final de agosto, 80,8% dos 120 servidores que participaram da pesquisa afirmaram ter tido contato com algum tipo de violência de gênero no ambiente universitário.
A UFSC considera violência de gênero “qualquer tipo de agressão física, moral, patrimonial, psicológica, sexual ou simbólica contra alguém devido à sua identidade de gênero ou orientação sexual”. As consequências dessas ações atingem sobretudo as mulheres e outros grupos socialmente vulnerabilizados, afetando “as condições de trabalho, estudo, permanência e participação da comunidade universitária, comprometendo a qualidade das relações institucionais e o exercício pleno de direitos”.
Considerando todos os participantes, 53,3% disseram ter tanto presenciado quanto vivenciado situações de violência de gênero, 22,5% relataram apenas ter presenciado essas situações e 5% apenas ter vivenciado. Por outro lado, 17,5% dos participantes declararam não ter presenciado nem vivenciado situações dessa natureza.
Sobre a autoria das violências, 52,5% dos respondentes apontaram colegas docentes como autores, 25,8%, colega TAE, 19,2%, a chefia imediata, 13,3% a chefia superior, 13,3% uma pessoa usuária do serviço e, 3,3% uma pessoa da comunidade externa à UFSC.
O levantamento foi realizado entre setembro e outubro de 2025, por meio de um questionário eletrônico com questões fechadas e abertas. A participação dos servidores era voluntária. Embora apenas 2% do quadro funcional da UFSC tenha respondido ao questionário, os pesquisadores defendem que os resultados evidenciam que a violência de gênero é percebida como uma questão relevante no cotidiano institucional.
Segundo o relatório, os resultados apresentados visam subsidiar o aprimoramento das políticas e ações institucionais, bem como a formulação de estratégias de prevenção, acolhimento, acompanhamento e encaminhamento relacionadas à violência de gênero no contexto universitário, em articulação com a Resolução Normativa nº 231, de 1º de julho de 2026, que dispõe sobre a Política de Equidade de Gênero da UFSC.
Perfil dos respondentes
Dos 120 participantes, 59,2% são docentes e 40,8% TAEs, sendo a maioria servidores ativos. Entre eles, 68,3% se identificaram como mulheres cisgênero, 24,2% como homens cisgênero, 5,8% como pessoas não binárias e 2,5% preferiram não responder.
Em relação à identidade étnico-racial, 81,7% se autodeclararam pessoas brancas e 15% pessoas negras. Apenas uma pessoa (0,8%) se autodeclarou amarela, enquanto 2,5% preferiram não responder. Cerca de 77% dos respondentes declararam ter entre 40 e 69 anos. Entre os participantes, 5% declararam ser pessoas com deficiência e 95% não ter deficiência.
Influência do gênero no reconhecimento e na ascensão profissional
O levantamento também investigou a percepção sobre a influência das relações de gênero no reconhecimento e na ascensão profissional dentro da universidade. Nesse sentido, 66,4% consideraram “influente” ou “muito influente” o papel do gênero no acesso a oportunidades de valorização, progressão e liderança.
Segundo o relatório, os participantes destacaram a percepção de que cargos de maior prestígio e influência institucional, como chefias, diretorias e pró-reitorias, permanecem predominantemente ocupados por homens, especialmente na alta gestão da universidade.
Essa percepção aparece também nas respostas de 72,5% dos participantes, que consideraram “insuficiente” ou “pouco suficiente” a presença de mulheres e pessoas de identidades dissidentes em cargos de gestão na UFSC.
O levantamento destaca ainda que a influência de gênero é percebida na forma como mulheres e pessoas de identidades dissidentes são reconhecidas, ouvidas e valorizadas no cotidiano institucional. “Foram frequentes os relatos de desqualificação, questionamento da competência, menor credibilidade e resistência ao exercício da autoridade por mulheres em cargos de chefia”, indicou o texto.
A sobrecarga decorrente da maternidade e do trabalho de cuidado, as redes informais de poder, o machismo estrutural e a misoginia também foram apontados pelos respondentes como sinais da influência do gênero.
Para os pesquisadores, a percepção majoritária de insuficiência desses grupos em cargos de gestão “dialoga com os relatos de assédio, desqualificação profissional, menor reconhecimento da autoridade feminina e dificuldades de acesso a espaços de decisão”. O relatório afirma ainda que “embora o levantamento não permita estabelecer relações causais, a convergência entre os dados quantitativos e qualitativos sugere que parte da comunidade universitária identifica a persistência de barreiras estruturais e culturais que afetam a equidade de gênero na instituição”.
Como recomendações para enfrentar a situação, o relatório apresenta sete pontos considerados fundamentais, entre eles a ampliação da divulgação de canais institucionais de acolhimento e orientação, o fortalecimento de capacitações e a instituição de um mecanismo permanente de monitoramento integrado das políticas relacionadas ao combate às violências e discriminações.
Leia o relatório na íntegra:
Imprensa Apufsc
