IA entrega a tarefa de casa pronta e escancara o abismo entre as escolas brasileiras

Sete em cada dez alunos do ensino médio usam IA nas tarefas, destaca o Lunetas

A primeira pista não veio do caderno, veio do relógio. Janaína Moura, mãe do Theo, de 14 anos, reparou que o ritmo da casa tinha mudado de uma semana para a outra. O filho sempre penou com escrita e interpretação de texto, e a lição de casa de redação costumava tomar a tarde inteira. “Era aquele momento em que ele empacava, me chamava a cada parágrafo, pedia para eu ler, reclamava que não sabia como começar”, lembra ela. Quando as mesmas redações passaram a sair em vinte minutos, sem uma dúvida sequer, sem um único chamado do quarto, a mãe estranhou o silêncio novo e resolveu perguntar sem rodeios.

O filho respondeu, e o que mais impressionou Janaína foi a naturalidade da resposta, já que ele não achava que estivesse fazendo nada errado. “Mãe, todo mundo na sala faz pelo ChatGPT. É só pedir para ele montar o texto e depois eu troco umas palavras pelo meu jeito, dá no mesmo que eu ter escrito”, disse o adolescente. Para ele, a máquina apenas economizava o tempo de uma etapa mecânica, e a troca de meia dúzia de palavras bastava para devolver o texto ao território da autoria.

O argumento que voltou como espelho

A conversa ficou mais complicada quando o Theo apontou para a rotina da própria mãe. “Mas você também usa o dia inteiro no trabalho, vive pesquisando e pedindo para ajeitar coisa de reunião”, rebateu. Janaína reconhece que o garoto tinha um ponto prático, porque ela passa boa parte do dia diante da tela e recorre às ferramentas para organizar ideias e acelerar fluxos.

A diferença que ela precisou explicar não estava no gesto, e sim no ponto de partida. “Quando eu uso no trabalho, eu já sei o que preciso dizer, já tenho a base daquilo e uso o recurso como suporte operacional”, conta. Na escola, o percurso é outro, porque o estudante precisa exatamente do atrito de escolher o vocabulário, montar a frase torta e refazê-la para aprender a formular um raciocínio próprio.

Dois em cada três já conversam com a máquina

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, ouviu 2.370 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos e encontrou 65% deles usando inteligência artificial generativa. Entre os de 15 a 17 anos, 68% recorrem à ferramenta para pesquisas escolares e 60% para buscar informações em geral. A mesma investigação aponta que 92% dessa faixa etária está conectada, o equivalente a 24,5 milhões de pessoas, e que 96% acessam a internet pelo celular, quase sempre sem ninguém por perto olhando a tela.

A TIC Educação 2024 acrescenta a parte incômoda dessa conta. Sete em cada dez estudantes do ensino médio já usam IA generativa em pesquisas escolares, proporção que cai para 39% nos anos finais do fundamental e para 15% nos anos iniciais.

O descompasso aparece quando a pesquisa pergunta sobre orientação: apenas 32% dos estudantes do ensino médio receberam alguma instrução sobre como usar essas ferramentas, e o número despenca para 19% quando se olha o conjunto do fundamental e do médio. Daniela Costa, coordenadora do estudo, alertou que o uso excessivo pode levar estudantes a depender de respostas prontas e a refletir menos sobre a informação que recebem. Boa parte das escolas ainda discute como apresentar a tecnologia enquanto ela já circula, sem manual, no bolso de cada adolescente.

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