Orquídeas foram plantadas em homenagem ao ex-reitor no Jardim Cancellier, no CCJ
Na manhã da última sexta-feira, dia 2, amigos, familiares e a comunidade universitária se reuniram para homenagear o ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier de Olivo, nove anos após sua morte. O ato, organizado pelo Centro Acadêmico XI de Fevereiro (Caxif), foi realizado no Jardim Cancellier, localizado no Centro de Ciências Jurídicas (CCJ). Ao final da cerimônia, foram plantadas no local orquídeas doadas pela Reitoria da UFSC, pelo Caxif e pela direção do CCJ. As flores eram as preferidas de Cancellier.



Em seu discurso de homenagem, o reitor Amir de Oliveira relembrou a trajetória de Cancellier, destacando a participação estudantil do ex-reitor durante a efervescência política do Brasil no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, até o momento de violência e arbitrariedade que atingiu a UFSC e Cancellier, que foi submetido a procedimentos abusivos, preso e afastado da universidade.
“Cancellier morreu e a UFSC adoeceu. As universidades públicas brasileiras adoeceram”, afirmou. Amir descreveu a tristeza profunda que se instalou na instituição e deixou uma pergunta que, para ele, permanece sem resposta: “como uma universidade dedicada à ciência, ao conhecimento e ao diálogo pôde ser envolvida em acontecimentos daquela gravidade?”. O reitor lembrou que a conclusão das investigações, anos depois, afastou as acusações penais. Ainda assim, disse, a UFSC seguiu seu caminho sentindo a falta de Cancellier.
Para Amir, o monumento inaugurado em 2023 no jardim em homenagem a Cancellier ajuda a preservar essa história e a lembrar à comunidade universitária e à sociedade o compromisso com a defesa da instituição, o devido processo legal e, sobretudo, o respeito à dignidade humana. Mas o reitor ressaltou que a memória do professor não deve se limitar à violência que sofreu. Recordou sua defesa da inclusão e da democratização do ensino superior, sua dedicação às aulas e aos estudantes e a atenção que dispensava às pessoas como gestor. “Cau era conciliador. Era uma pessoa simples e um amigo querido para tantos que estão aqui”, disse. Ao encerrar, evocou o docente que amava a UFSC e era capaz de unir a universidade em torno de seus ideais e compromissos sociais. Que essa lembrança, desejou, ajude cada integrante da comunidade a colocar seus próprios tijolos na história da instituição.
A homenagem também contou contou com a presença de Julio e Acióli Cancellier, irmãos do ex-reitor. Julio agradeceu a quem trabalhou para preservar sua memória e destacou o significado da frase inscrita no monumento: “Minha morte foi decretada quando fui banido da universidade”. Para ele, as palavras são especialmente dolorosas porque a UFSC era a casa de Cancellier. Ele também agradeceu à atual gestão da universidade pelo diálogo com a sociedade, uma aproximação que, em sua avaliação, dá continuidade a uma convicção do professor: a universidade faz parte da comunidade que a cerca.
Ao se dirigir especialmente aos estudantes que não tiveram a oportunidade de conhecer Cancellier, Julio lembrou o jovem que saiu de Tubarão e encontrou no movimento estudantil um caminho para defender a união. Segundo Julio, essa disposição para reunir pessoas acompanhou Cancellier da vida estudantil à docência e à reitoria, onde valorizou a participação de estudantes, técnicos e professores. Na homenagem, quis deixar viva também essa imagem: a de um homem sonhador que acreditava na força coletiva da universidade.
Trajetória

Nascido em Tubarão, no sul catarinense, em 13 de maio de 1958, Luiz Carlos Cancellier de Olivo era filho de uma costureira e de um operário e cresceu ao lado dos dois irmãos, Júlio e Acioli. Chegou à UFSC em 1977, como estudante de Direito, em um Brasil ainda sob a ditadura militar. Jovem, engajou-se no movimento estudantil e nas campanhas pela redemocratização, mesmo sob o risco de prisão. O envolvimento com a vida pública o levou a interromper os estudos para se dedicar ao jornalismo, carreira que o conduziu a Brasília, onde foi assessor parlamentar no Senado Federal entre 1992 e 1994.
Em 1995, voltou à UFSC – e dela não saiu mais. Retomou o curso de Direito, graduando-se em 1998, tornou-se mestre em 2001 e doutor em 2003, no Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), com a tese “A reglobalização do Estado e da Sociedade em rede na era do acesso”. Em paralelo, construiu uma trajetória sempre próxima da gestão pública: foi assessor da presidência do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), especializou-se em Gestão Universitária e Direito Tributário e, em 2003, atuou como coordenador-geral da Secretaria de Estado da Saúde (SES).
Foi em 2005 que ingressou como professor do CCJ, lecionando disciplinas de Direito Administrativo. A partir dali, a ascensão foi rápida e marcada pela confiança dos colegas: coordenador do curso e membro do Conselho Universitário (CUn) em 2008, chefe de departamento por três anos a partir de 2009, presidente da Fundação José Arthur Boiteux e, no início de 2012, diretor do CCJ.
Em 2015, encabeçou a chapa “A UFSC pode mais”, ao lado da professora Alacoque Lorenzini Erdmann, e venceu a eleição para a Reitoria. Tomou posse em maio de 2016 com uma frase que hoje soa como síntese de sua forma de estar no mundo: “Por mais que as dificuldades surjam, uma palavra de conciliação, de abertura e de diálogo sempre pode trazer uma luz”. Sua gestão apostou na descentralização administrativa e na participação dos centros e unidades nas decisões, com a meta de unir excelência acadêmica e eficiência na administração.
O mandato foi tragicamente interrompido em 14 de setembro de 2017, quando Cancellier foi preso e afastado do cargo. Liberado dias depois, recebeu a proibição de entrar na Universidade e de manter contato com os colegas de trabalho – afastado, portanto, do lugar ao qual dedicara toda a vida. Em 2 de outubro de 2017, uma segunda-feira, o reitor partiu. Nos anos seguintes, consolidou-se na comunidade acadêmica e fora dela a compreensão de que Cancellier foi vítima de abusos e arbitrariedades cometidos por agentes públicos das áreas policial e judicial, agravados por uma cobertura sensacionalista e superficial de parte dos meios de comunicação.
Quem conviveu com o professor conta que ele encontrava nas flores a mesma paciência que dedicava às pessoas: o cuidado de quem sabe que as coisas boas levam tempo para florescer. Para os amigos e familiares, era simplesmente “Cau”, um homem de conversa fácil, que acreditava no diálogo como forma de resolver conflitos e que tratava a UFSC não apenas como um local de trabalho, mas um projeto de vida.
Fonte: Notícias da UFSC
