Crise do sindicalismo, o que temos a ver com isso?

*Por Adriano Duarte e Camilo Araújo

Os sindicatos enfrentam hoje, em todo o mundo, uma onda crescente de descrédito. A queda no número de associados é o retrato mais imediato da descrença nas instituições e nos valores da democracia e expressa a desesperança nas instituições coletivas. O individualismo venceu e continua vencendo aqui e alhures!

Em 2012, segundo o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), no início da série histórica do IBGE, a taxa de sindicalização, que já havia diminuído muito ao longo da década de 1990, era de 16,1%. Se a década de 1970 foi apontada como a era do ouro do sindicalismo, ao menos do Brasil, a década de 1980 pode ser tomada como o início do pesadelo. 

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), nos últimos quarenta anos, coincidindo com o crescimento vertiginoso do neoliberalismo, enfrentamos em todo o mundo uma forte globalização, uma intensa desindustrialização, e uma, aparentemente, irreversível flexibilização das leis trabalhistas. Ainda segundo a OIT, 40% dos trabalhadores de todo o mundo trabalham atualmente na informalidade. Esses números chegam a 50% na Ásia e 57% da força de trabalho na África. As causas dessa mudança estrutural são muitas: empresas cada vez mais enxutas, com forte concentração de automação, menos gente e mais robôs, nas quais a organização sindical se torna mais fluída (ao que se deu o nome de Toyotismo). Disso decorreram novas formas de organização do trabalho, com a expansão da informalidade, a terceirização, o trabalho intermitente e o aumento exponencial do número de trabalhadores autônomos, eufemisticamente denominado empreendedorismo, sejam eles pessoas jurídicas, sejam entregadores em aplicativos., Acrescente-se uma mudança demográfica e de perfil socioeconômico dos trabalhadores, à reforma trabalhista de 2017, como o fim da contribuição obrigatório, que limitou drasticamente as receitas dos sindicatos e sua capacidade de ação, entre outras causas. Essa é uma tendência mundial.

Segundo relatórios da Confederação Sindical Internacional (CSI) os maiores desafios ao sindicalismo hoje são as violações sistemáticas à liberdade de associação. Ou seja, quanto mais avançam as lógicas do mercado, menor é o espaço para a ação coletiva das associações de classe e dos sindicatos. Lembremos que a liberdade de associação é um dos direitos civis conquistados ainda no século XVIII.

Em 2025 pesquisa encomendada pela Central Única do Trabalhadores (CUT) e Fundação Perseu Abramo, com apoio do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e do Fórum das Centrais Sindicais1, mostrou que 52,4% dos entrevistados afirmaram não conhecer as ações concretas das entidades que os representam, embora uma ampla maioria ainda sugerisse que os sindicatos são importantes. 

Concretamente, as dificuldades hoje são tantas que a própria definição de sindicato parece ter se tornado um problema. “que tipo de associação deveria ser considerada um sindicato? Os critérios são os mesmos em todos os países?”2 A verdade é que talvez estejamos em face de uma mutação irreversível. Se o sindicato foi a instituição cultural mais importante criada pela classe trabalhadora na passagem do século XIX para o XX, hoje não temos nenhuma garantia de que ele continuará a existir no século XXI. Talvez estejamos, tristemente, assistindo aos estertores dessa forma de organização coletiva. Quem viver, veremos!

As condições estruturais do que Ernest Mandel chamou de “capitalismo tardio” são decisivas para essa mutação, mas fica a pergunta: como nós próprios, que insistimos em defender o sindicato como instituição cultural decisiva da classe trabalhadora, temos contribuído para o seu declínio?

Na sexta-feira passada dia 16, tivemos uma assembleia geral (AG) na Apufsc, ela começou às 14hs e terminou às 19hs, cinco horas que caberiam, sem exagero, numa descrição do inferno feita por Dante Alighieri. Tudo porque numa reunião do Conselho de Representantes de setembro não foi votada a Comissão Eleitoral. Vejam, não foi votada porque os dez nomes que foram indicados na reunião do conselho foram todos, repito, todos, aceitos para compor a referida comissão que, em sua reunião inicial, poderia escolher cinco titulares e dois suplentes, ou mesmo manter os dez nomes indicados. Ou seja, nada de errado, e todos os interessados plenamente contemplados. Existia algum problema nisso? Não! Pois bem, essa filigrana (de simplesmente não ter votado o que parecia um consenso) gerou duas ações judiciais de uma oposição que milita intensamente no ativismo jurídico (qualquer semelhança com o que temos vivido no plano nacional não é mera coincidência) e a obrigação da realização de uma Assembleia Geral, que durou, repetimos, cinco horas.

Estivemos presente às cinco horas de tortura e fiquei me perguntando se um professor/a recentemente chegado à universidade e que ainda acreditasse que o sindicato tem um papel importante a desempenhar em nossa vida coletiva, continuaria com essa mesma ideia depois de presenciar as cinco horas de uma “reunião” cheia de picuinhas, cascas de banana, leituras enviesadas, ofensas, malabarismos linguísticos, e muita, muita verborragia? E foi exatamente o que aconteceu: um jovem professor recentemente ingresso na universidade, cheio de ânimo, assistiu às primeiras duas horas da reunião, na qual se discutiu o que deveria ser discutido nas três horas seguintes. Ele saiu da reunião e me disse: “colega não me convide mais, não entrei e não entrarei no sindicato…”

A forma sindicato declina a olhos vistos e precisamos assumir nossa responsabilidade nesse enfraquecimento, pelo simples fato de que somos – os que dizemos defender essa forma política de organização – parte crucial do problema.

  1. https://reporterbrasil.org.br/2025/12/vox-populi-70-avaliam-sindicatos-importantes-greve-direito/ ↩︎
  2. Rodrigues, Leôncio Martins. O declínio das taxas de sindicalização: a década de 80. Rev. bras. Ci. Soc. 13 (36) • Fev 1998. ↩︎

*Adriano Duarte é professor de história do Brasil e história contemporânea (HST/CFH) e Camilo Araújo é professor de história do colégio de aplicação (CA/CED), os dois são membros da Associação Nacional de História do Trabalho (Anaht).

Artigo recebido às 19h16 do dia 19 de outubro de 2026 e publicado às 8h50 do dia 20 de outubro de 2026