A docência universitária como trabalho ubíquo

Por Rafael da Cunha Lara

A docência universitária, como qualquer outra atividade contemporânea mediada por tecnologias digitais e móveis, cada vez mais ganha características de uma atividade ubíqua. Alguns elementos pouco se alteraram com o uso de tecnologias digitais na educação: por exemplo, as práticas de ensino. Outros, no entanto, foram profundamente impactados. Temos atrelado esses processos à ubiquidade, um produto típico da cultura digital, no contexto da passagem das sociedades industriais para as pós-industriais, engendrado pelo uso de tecnologias digitais – mas, sobretudo, móveis – nas práticas sociais, culturais e nos processos de trabalho.

Trabalho ubíquo pode ser definido como a condição ou caráter ubíquo do trabalho, característico de atividades humanas nas chamadas “sociedades tecnológicas”, em função da incorporação de tecnologias digitais e móveis nas práticas culturais do cotidiano de vida privada e laboral. Dessa forma, o trabalho ubíquo como característica de algumas atividades contemporâneas ligadas, sobretudo, ao trabalho intelectual, é um fenômeno emergente, tributário da ubiquidade característica da cultura digital, instaurada sob o capitalismo contemporâneo e que permeia processos comunicacionais e de trabalho, visto que a intersecção dos espaços online e off-line constitui “uma mistura inextrincável no tecido do cotidiano”, nas palavras de Lúcia Santaella, em sua obra Linguagens líquidas na era da mobilidade.

Os estudos e pesquisas que tenho sistematizado nos últimos anos, incluindo os dados preliminares da pesquisa solicitada pela Apufsc-Sindical sobre o perfil de docentes da UFSC, coordenada pelo Laboratório de Sociologia do Trabalho (Lastro/ UFSC), em 2019, permitem caracterizar, ainda que sinteticamente, os elementos que constituem o trabalho ubíquo. São eles: a pulverização do tempo; o desbordamento de fronteiras (entre público e privado, trabalho e não trabalho); a técnica temporal de ser multitarefa; e a simultaneidade e onipresença em diferentes espaços.

As consequências do trabalho ubíquo na docência universitária

Tomando por base os dados das últimas pesquisas realizadas (em 2016, com professores de 48 cursos de doutorado no Brasil; em 2019, com professores da UFSC), podemos fazer uma síntese sobre como as características constituintes do trabalho ubíquo repercutem na docência universitária. Para isso, precisamos considerar os aspectos internos e externos do trabalho no contexto das universidades brasileiras, incluindo as práticas de (auto)intensificação do trabalho – fenômeno apreendido, por exemplo, na pesquisa de Valdemar Sguissardi e João dos Reis da Silva Júnior, e apresentado na obra Trabalho intensificado nas federais: pós-graduação e produtivismo acadêmico (São Paulo, editora Xamã, 2009) – e a multiplicidade de tarefas nas quais os professores são envolvidos, para além da tríade ensino-pesquisa-extensão: mais de 80 atividades, conforme identificado no estudo de caso realizado em 2016.

Pulverização da temporalidade – Nos últimos anos tem crescido a preocupação com o ritmo de vida nas sociedades contemporâneas, expressas em obras de autores como Byung-Chul Han, William Powers, Jonathan Crary, Richard Sennett e outros ligados aos estudos do trabalho. A pulverização da temporalidade é o elemento mais imediato identificado como consequência da introdução de tecnologias digitais e móveis – que não ocorre de modo apartado das relações de produção – em contextos laborais. Na lógica de trabalhar e produzir que marca o trabalho docente universitário, 82,6% dos pesquisados no estudo de 2016 avaliam que tempos e espaços de trabalho são estendidos para os momentos e espaços originalmente destinados a não trabalho.

Além disso, relacionado às condições de trabalho e às práticas ubíquas no contexto universitário, outras características da pulverização da temporalidade e da fusão dos tempos destinados a trabalho e não trabalho aparecem nessas pesquisas: realizar horas a mais de trabalho, para além da jornada prevista, e não ‘desligar’ do trabalho em momentos de não trabalho, quando utilizam as tecnologias digitais e móveis, são alguns exemplos. Esta condição não é determinada em si pela ubiquidade que atravessa as práticas sociais, mas é decorrente das condições de trabalho destes professores: segundo eles avaliam, o tempo formal de trabalho é insuficiente para a realização das suas atividades na universidade.

Outros aspectos apreendidos nestas pesquisas dão conta de que tem se tornado uma prática comum a de reservar momentos de lazer para acessar e responder e-mails, seja para fins de minimizar o volume de atividades acumuladas, seja como estratégia de antecipar as demandas do expediente. O assédio de alunos, orientandos, colegas e chefias via aplicativos de smartphones também aparecem como uma prática comum no meio universitário.

A estratégia comumente adotada tem sido atender às demandas imediatamente, independente do dia da semana ou horário. Em alguns casos, segundo depoimentos coletados em 2016, os professores preferem responder imediatamente as demandas que chegam via dispositivos móveis, para evitar acúmulo de tarefas e para evitar serem “difamados” no departamento perante colegas e estudantes. É como se a comunicação ubíqua tivesse instaurado uma nova ética de respostas às mensagens: a resposta imediata, independentemente da urgência da informação e independentemente do horário em que ela é enviada.

Em ambos os estudos, na análise dos docentes, eles e elas trabalham a mais no mesmo intervalo de tempo, se comparado com outros períodos, antes da inserção das tecnologias no contexto laboral. O que se percebe é que essas práticas são uma combinação de intensificação e autointensificação do trabalho, temas clássicos da Sociologia do Trabalho que gradativamente se cristalizam como habitus na docência universitária.

Esses aspectos do trabalho na universidade se coaduna com outras interpretações, acadêmicas ou não, sobre os ritmos de vida contemporâneos mediados por dispositivos móveis, traduzidas como “tempo sem tempo” ou “discronia temporal”, e materializadas em algumas falas de professoras e professores, apreendidas na pesquisa sobre o que mais se alterou no seu trabalho, com a inserção de tecnologias: “Não tenho tempo de fazer nada” (Carla, 55 anos, professora há mais de 15 anos em cursos de doutorado). “O trabalho agora é full time” (Adriana, 48 anos). “Ampliou minha carga horária de trabalho sem aumento correspondente do salário. O número de horas trabalhadas é ilimitado, considerando o quanto trabalho em casa, usando meu computador” (Antônio, 60 anos). “A principal alteração é o trabalho em tempo integral. Durmo pouco e sempre com uso de remédios, vivo cansado, irritado, esgotado, exausto e sempre pressionado por muitos prazos e urgências todos os dias” (Juarez, 54 anos). Estes depoimentos, colhidos em 2016, relacionados aos impactos da pulverização do tempo face aos usos que se faz das tecnologias em contextos laborais, parecem alterar a própria identidade docente, como exemplificado no depoimento de Cesar, 51 anos: “De certa forma, me tornei ‘atemporal’, ou seja, uma ampliação da relação espaço/tempo para uma quantidade muito maior”.

Desbordamento de fronteiras espaciotemporais – Se na pesquisa de 2016 a dimensão mais afetada do trabalho docente, pelo uso das tecnologias, era a dimensão espaço-tempo, em 2019 cerca de 80,2% de docentes da UFSC avalia que não há mais uma separação clara entre tempos e espaços de trabalho e não trabalho. De fato, neste segundo grupo, apenas 9,8% dos sujeitos não costuma trabalhar em casa. Esses dados preliminares corroboram a tese de que há uma porosidade de fronteiras entre público e privado ou, em outros termos, entre trabalho e descanso. O fato de, pela via da comunicação ubíqua, 68,1% dos docentes da UFSC serem requisitados mais vezes e a qualquer instante, corrobora os dados da pesquisa de 2016, que identificou que a informatização de processos, a criação de espaços on-line para o trabalho e a mobilidade são aspectos que favorecem a fusão de espaços de trabalho e de não trabalho. Mas não sem consequências: 82,6% dos participantes daquela pesquisa avaliam que, com as tecnologias digitais e móveis, houve uma dilatação dos tempos e espaços de trabalho, invadindo os momentos e ambientes de descanso e lazer. E 52,8% acreditam que os processos de trabalho ficaram mais intensificados.

Essas características levam a postular a existência de uma concomitância entre intensificação e extensificação do trabalho docente universitário, uma “in/extensificação”. Em ambas as pesquisas, os impactos das tecnologias permitem uma ampliação da prática de “levar trabalho para casa” (embora essa estratégia seja clássica na atividade laboral docente). Dois fatores principais têm sido identificados na prática de estender o trabalho para o ambiente da casa: um deles tem a ver com os meios de trabalho (sofrer menos interrupções em casa e contar com equipamentos e infraestrutura para realizar as atividades, melhores do que a infraestrutura que a universidade dispõe). Outro tem a ver com os tempos para a realização das atividades em função do volume de demandas (práticas de prolongar o labor para horas “não comerciais”, em que a universidade se encontra fechada).

Não são apenas os espaços físicos impactados pela diluição de fronteiras entre público e privado: espaços virtuais, como redes sociais, voltados a atividades de entretenimento, frequentemente se convertem em espaços de trabalho, por mensagens que chegam via diferentes aplicativos vinculados a estas redes, menções ou marcações de usuários em posts e comentários.

Multitarefas – Outra característica fundamental do trabalho ubíquo é a condição potencializada de realizar várias atividades ao mesmo tempo, ou seja, a técnica temporal de multitarefa. Em outras oportunidades analisei mais detalhadamente as contradições entre os elogios a essa característica do indivíduo multitarefa e as críticas emergentes a ela. A técnica temporal de ser multitarefa é mobilizada, comumente, para garantir uma maior produtividade – qualquer que seja – no mesmo período de tempo. Tanto na pesquisa de 2016, quanto na pesquisa de 2019, mais da metade dos participantes lançam mão desse recurso, com o uso de tecnologias digitais. Em ambos os casos, embora seja uma estratégia frequentemente mobilizada por professores universitários, a maioria reconhece que a economia de tempo para a realização de algumas tarefas, com o uso de tecnologias, não reverte em mais tempo livre: inclusive, em alguns casos, esse tempo economizado é colonizado por mais tarefas.

Na análise de Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, a técnica da multitarefa não constitui nenhum progresso civilizacional: antes, trata-se de um retrocesso civilizatório. Segundo o autor, a mobilização dessa técnica gera uma atenção ampla, porém, rasa, que se assemelha à atenção de um animal selvagem que, na natureza, é obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades (caçar e não ser caçado, por exemplo). Isso tem duas consequências mais visíveis. Uma delas é que, no tocante a processos civilizatórios, a sociedade do desempenho (pautada em técnicas individuais ou coletivas para aumento da produtividade) se aproxima de uma sociedade da barbárie. A segunda é que a cultura de ser multitarefa – seja para fins laborais, seja nas práticas culturais e de entretenimento – cria um habitus de constantemente realizar tarefas, contribuindo para os processos psíquicos de recusa ao ócio e à contemplação, identificadas como um novo tipo de mal-estar da contemporaneidade e gatilhos de doenças psíquicas.

“A sociedade do desempenho (pautada em técnicas individuais ou coletivas para aumento da produtividade) se aproxima de uma sociedade da barbárie.”

Entre as repercussões da técnica de ser multitarefa – que de algum modo leva à ilusão de ser um atributo de engenhosidade – está o risco de comprometimento da economia de atenção, necessária para processos criativos. Logo, a médio prazo, o atributo contínuo de ser multitarefa, potencializado pela condição ubíqua contemporânea, pode se converter em obstáculo à realização de algumas atividades, como o trabalho intelectual próprio da atividade docente.

Simultaneidade e onipresença – Embora conceitualmente distintos, em contextos de trabalho ubíquo, simultaneidade e onipresença se apresentam como indissociáveis nas práticas que temos encontrado. A hipermobilidade e a comunicação ubíqua, isto é, estar ao alcance das pessoas via tecnologias digitais e móveis, é ambivalente: permite deslocamentos intermitentes pelas diferentes ambiências e torna as pessoas sempre ao alcance, “disponíveis”. No entanto, atrelado à porosidade das fronteiras espaciotemporais de trabalho e não trabalho, o inverso também é recorrente: o indivíduo (trabalhador) passa a estar constantemente (oni)presente para ser alcançado pelas demandas laborais.

A onipresença, via comunicação ubíqua, é considerada prejudicial pelos participantes da pesquisa de 2016: estar ao alcance das pessoas via tecnologias digitais e móveis, enquanto se está trabalhando, prejudica o desenvolvimento das atividades para 67,9% dos professores, pois leva a dificuldades de concentração nas tarefas – elemento essencial para o trabalho intelectual. Outros aspectos relacionados à simultaneidade e à onipresença também são destacados como prejudiciais, por exemplo, o fato de o uso das tecnologias digitais e móveis favorecer interrupções nos processos de trabalho, como pausar uma tarefa para checar e-mails, acessar redes sociais e links não necessariamente ligados ao trabalho do momento. Além disso, 73% dos pesquisados afirmam que sempre ou frequentemente são acionados via dispositivos móveis para fins de trabalho, enquanto estão realizando outras atividades de trabalho, fora dos horários de expediente. Isso torna a comunicação ubíqua também pervasiva – e invasiva – nesse segmento profissional. Os depoimentos sobre “estar disponível sempre” e “estar ‘ao alcance’ dos alunos (e de todos) a todo momento”, emitidos pelos professores, denotam essa condição.

Relacionado a esses aspectos, consideramos a extensa discussão que Byung-Chul Han faz sobre doenças contemporâneas, cujas características são sistêmicas, uma vez que estão relacionadas ao excesso de estímulos externos e ao ritmo de vida contemporâneo. Referindo-se à atenção parcial contínua – o estado mental de estar constantemente alerta – o autor chama a atenção para o deslocamento da atenção profunda para uma atenção dispersa, caracterizada pela rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. Um dos principais aspectos que a hipermobilidade e a comunicação ubíqua fomentam, nessa análise, é a possibilidade de desencadear a perda da capacidade de diferenciar situações que exijam baixa e alta capacidade de atenção, aspecto também relacionado por Santaella em seus trabalhos. Essas características repercutem em qualquer atividade no mundo do trabalho, mas especialmente naquelas que exigem um alto nível de abstração e processos criativos, como o trabalho intelectual universitário.

Estratégias, resistências, alternativas

Para evitar cair no determinismo tecnológico, é importante interpretar os resultados acima como decorrentes de ambivalências e ambiguidades que permeiam o trabalho docente universitário. Não são as tecnologias, em si, que promovem formas de trabalho mais profícuas ou mais precárias, mas os usos que se dão a elas. Nos aspectos que temos evidenciado, as características do trabalho ubíquo têm se apresentado, em frequência e intensidade, mais próximas a vetores do trabalho intensificado no tempo e expandido para outros espaços, do que o contrário. Causa apreensão a tendência de que, quanto menos tempo de magistério, mais se naturalizam as condições de trabalho precárias. Além disso, volume de trabalho, prazos exíguos e ritmo de vida acelerado – com intensa atividade nos processos comunicacionais via dispositivos móveis – têm formado uma combinação que tensiona a docência universitária e causa adoecimento, fisiológico e psíquico, dos sujeitos.

“Não são as tecnologias, em si, que promovem formas de trabalho mais profícuas ou mais precárias, mas os usos que se dão a elas.”

Mas mesmo nesses espaços, coexistem estratégias, ainda que em escala menor: estar menos conectado, encarar o descanso como necessidade, separar tempos e espaços de trabalho e não-trabalho, diminuir o ritmo de produtividade ou abdicar de algumas designações de atividades, por exemplo, são tentativas individualizadas, marginais à cultura docente instaurada, de preservar condições mínimas de trabalho. A pesquisa, ainda que não tenha esse objetivo, cumpre a função de analisar fragmentos da realidade, estabelecer nexos e sistematizar relações para que, pelo menos, os sujeitos envolvidos tenham a possibilidade de vislumbrar um quadro mais completo da docência universitária, refletir sobre sua posição nesse cenário e reconhecer que os limites e as possibilidades colocadas pela carreira e profissionalidade não são condição individual e exclusiva sua.

A ubiquidade que alcança o cotidiano de vida social e, nele, as relações de trabalho, precisa ser situada em um movimento sistêmico, característico do atual período histórico e de novas dinâmicas do trabalho, com todas as suas repercussões políticas, em que as tecnologias emergem como pilares da mundialização da economia, da uberização do trabalho, do capitalismo de plataforma e das armadilhas da flexibilidade e do home-office, conforme os estudos do trabalho têm apreendido há mais de uma década. Em contextos laborais modulados pela ambivalência da ubiquidade, tal onipresença pouco tem de divino: ao contrário, no mais das vezes, inscreve-se nas condições humanas no limiar das características do trabalho precário.

Em um cenário, entre outros aspectos, de desregulamentações nas políticas educacionais, cortes orçamentários, cerceamento da liberdade de cátedra, desvalorização da universidade pública e do conhecimento científico e de ameaças à carreira docente, temos insistido no ponto de que a saída frente ao quadro de precarização do trabalho – que se evidencia e que se anuncia – não é no plano individual, mas coletivo. Neste cenário, fortalecer as entidades de classe, as associações científicas e outros coletivos de professores para que cumpram seu papel de mobilização docente parece ser, politicamente, a estratégia mais sensata.

Rafael da Cunha Lara é professor, pedagogo e pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho – LASTRO/UFSC. Doutor em Educação e doutorando em Sociologia e Ciência Política, integra o grupo de pesquisa Trabalho e Conhecimento na Educação Superior (TRACES/UFSC).

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