Desperdícios de conhecimentos

Por Raul Valentim da Silva

As universidades dispõem de um imenso acervo de conhecimentos. Suas múltiplas áreas de atuação permitem uma visualização bastante diversificada e abrangente de quase tudo o que acontece no mundo. Suas visualizações alcançam também o passado e podem descortinar variados cenários de futuro. 

Os livros de suas bibliotecas e os artigos disponíveis em seus modernos sistemas de acesso a informações ampliam sobremaneira tais acervos. As universidades dispõem também dos saberes necessários para a efetiva utilização desses conhecimentos, como o domínio de idiomas apropriados. 

Todas essas potencialidades são efetivamente utilizadas na formação dos alunos em todos os níveis. As atividades de ensino, no entanto, constituem apenas uma das formas de disseminação dos conhecimentos disponíveis nas universidades. É possível ampliar significativamente as contribuições que o sistema universitário pode oferecer à sociedade brasileira e à própria humanidade. 

Decio da Silva é um engenheiro mecânico formado na UFSC. Seu pai foi um dos três criadores do grupo industrial WEG, sediado em Jaraguá do Sul. No dia 3/11/20, esta empresa tinha um valor de mercado de 172,5 bilhões de reais. Ocupando o sexto lugar no ranking brasileiro, superava o Banco do Brasil, décimo colocado, cujo patrimônio era avaliado em 86,9 bilhões de reais. 

Esta constatação mostra que a organização, o planejamento e a tecnologia decorrentes dos conhecimentos disponíveis nas universidades possuem um imenso poder de desenvolvimento em setores produtivos que podem beneficiar extraordinariamente a nação brasileira. 

A WEG não gera apenas benefícios para seus acionistas espalhados pelo mundo. Gera muitos empregos bem remunerados e gera preciosos impostos para os governos. Na ampla gama de produtos que oferece, podem ser destacadas suas turbinas eólicas estão aproveitando os ventos para gerar energia limpa. Suas exportações geram benefícios para populações de outras nações e proporcionam divisas cambiais altamente benéficas para o Brasil.

Há mais de dez anos, o engenheiro Decio da Silva, já com uma vasta experiência profissional, dizia, numa palestra, que “o pior desperdício é o desperdício do conhecimento”. Assim, é muito importante descobrir e implementar processos que propiciem um melhor aproveitamento dos conhecimentos disponíveis no sistema universitário brasileiro.   

A interdisciplinaridade é certamente um importante mecanismo de apoio ao desenvolvimento sustentável que as universidades precisam aprender a utilizar melhor. A extensão, incluindo agora a sua curricularização, é outra forma que deve ser substancialmente ampliada. A implantação em 2022 das novas diretrizes curriculares nas engenharias, incluindo uma visão mais sistêmica e humanista nas competências desenvolvidas, enquadra-se neste contexto.  

 Uma maior e melhor vinculação das pesquisas, especialmente no âmbito das pós-graduações, com as reais problemáticas e oportunidades dos sistemas produtivos também é importantíssima. Uma maior ênfase no empreendedorismo e um crescente envolvimento de aposentados, em atividades de pesquisa e extensão, podem igualmente ser bastante benéficos para a sociedade e para melhorar a imagem interna e externa das universidades, especialmente das públicas.

Raul Valentim da Silva é professor aposentado do Centro Tecnológico (CTC) da UFSC.

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