20 anos

Por Nestor Roqueiro*

Um índice poderia ser construído como a soma ponderada de aviões, bananas e unicórnios. Em termos matemáticos seria: Valor do Índice=C1*Número de Aviões + C2*número de bananas+C3*número de unicórnios. Se for avaliada a riqueza do mundo (e o objetivo for maximizar a riqueza) em função do valor do índice, certamente diferentes agentes vão defender diferentes valores para C1, C2 e C3. Se o agente for um fabricante de aeronaves certamente gostaria que C1 fosse maior (muito maior) do que C2 e C3, pois na busca pela maximização da riqueza mundial ele poderia vender mais aeronaves. Pelas mesmas razões, o agricultor que planta bananas gostaria que C2 fosse o valor maior. O índice é uma tentativa de somar quantidades de diferentes naturezas, o que não faria muito sentido para um estudante do ensino fundamental, afinal sempre se ensinou a somar bananas com bananas e aviões com aviões. Mas… assim são as coisas fora da escola.

Bem, e tudo isto a troco de que? Basicamente como motivação para um debate que considero muito importante para poder definir o que a universidade vai ser daqui a 20 anos.

Anos atrás, contribuí para a definição e advoguei pela implantação de um sistema de avaliação docente para progressão funcional com regras claras e consistentes com as premissas pregressas definidas no século passado como fruto de uma consulta ampla à comunidade. O trabalho que eu e os meus colegas da CPPD fizemos foi atualizar a metodologia aos novos tempos (cargos) sem modificar a essência. Por que? Pois não tínhamos condições de realizar uma consulta ampla naquele momento. Mas esta consulta e um novo sistema de avaliação são necessários, pois a universidade mudou, o país mudou e o mundo mudou.

Basicamente, o sistema atual de avaliação docente é alicerçado em um índice.

Precisamos nos perguntar se o trabalho docente pode ser avaliado corretamente por um índice e se queremos que a avaliação se dê por um índice.

Se eu tivesse a resposta, não estaria escrevendo este texto. Portanto, o que tenho são perguntas e algumas ideias, e não tenho um fórum onde debater. Creio que a universidade e/ou o sindicato deveria incentivar e dar suporte a este fórum.

Por que?

Docentes somos seres humanos e procuramos nos sentir úteis e ser recompensados pelos nossos esforços também. O sistema de avaliação pode balizar estas duas questões, por um lado explicitando o que se considera útil e por outro atribuindo um prêmio.

Mas isto não é uma questão puramente individual. A atuação docente está inserida nos objetivos maiores da universidade. Se a universidade não sabe o que quer ser daqui a 20 anos, se não sabe de que forma pode melhorar a qualidade de vida da sociedade, se não sabe como influenciar na definição de políticas públicas, se …, não pode dizer aos docentes o que espera deles para atingir os seus objetivos.

Sei que existem planos plurianuais, mas se perguntarem a 10 docentes, 9 certamente não vão saber dizer nem sequer os objetivos gerais. Será que é porque há um problema de comunicação?

De qualquer forma, o sistema de avaliação docente precisa estar em consonância com os objetivos da universidade e um fórum onde a comunidade possa debater seria uma boa forma de promover a comunicação e a definição de objetivos comuns.

*Professor do Departamento de Automação e Sistemas do Centro Tecnológico da Universidade Federal de Santa Catarina (DAS/CTC/UFSC)

Compartilhar