*Por Rui Daniel Prediger
Há decisões que encerram um ciclo administrativo. Outras inauguram uma nova etapa institucional. A deliberação do Conselho Universitário da UFSC, em 30 de junho de 2026, sobre a renovação do Contrato Especial de Gestão do Hospital Universitário com a Ebserh, renomeado HU Brasil, pertence a essa segunda categoria. Formalmente, tratava-se de apreciar as bases para renovação de um contrato. Na prática, discutia-se algo muito maior: o futuro de uma das principais infraestruturas acadêmicas, assistenciais e científicas da Universidade Federal de Santa Catarina.
A sessão ocorreu em um momento simbólico. Era uma das últimas reuniões do CUn sob a presidência do reitor professor Irineu Manoel de Souza. A negociação final e eventual assinatura do novo contrato ficarão sob responsabilidade da nova Reitoria, conduzida pelos professores Amir Antônio Mazor de Oliveira Júnior e Felipa Rafaela Amadigi. A próxima Reitoria não receberá apenas uma minuta contratual para negociar. Receberá também um conjunto de aprendizados acumulados ao longo de dez anos de experiência concreta da UFSC com a gestão do Hospital Universitário pela Ebserh.
Como relator do processo no Conselho Universitário, procurei olhar para a matéria sob essa perspectiva. Não se tratava apenas de perguntar se o contrato deveria ou não ser renovado. A pergunta mais importante era outra: o que a UFSC aprendeu nesse período e como esse aprendizado deve orientar o futuro do Hospital Universitário?
O Hospital Universitário Professor Polydoro Ernani de São Thiago (HU/UFSC) ocupa posição singular na vida institucional da UFSC. É, ao mesmo tempo, órgão suplementar da Universidade, hospital integrante do Sistema Único de Saúde (SUS) e uma das principais estruturas de ensino, pesquisa, extensão e inovação em saúde da instituição. Suas decisões não afetam apenas a gestão hospitalar. Afetam a formação de estudantes, a atuação de docentes, técnicos-administrativos, residentes, pesquisadores e profissionais da saúde. Afetam também milhares de catarinenses que dependem do HU para prevenção, promoção e recuperação da saúde. Por isso, reduzir esse debate a uma discussão administrativa seria empobrecer sua dimensão real. O que está em jogo é a relação entre a Universidade e seu Hospital, entre assistência e formação, entre eficiência gerencial e identidade acadêmica.
A relatoria deste processo representou uma das maiores responsabilidades institucionais que desempenhei desde que ingressei na UFSC, em 1997, como estudante do Curso de Farmácia. Parte importante da minha formação acadêmica passou pelo Hospital Universitário. Anos depois, como professor e pesquisador do Departamento de Farmacologia, tenho desenvolvido pesquisas científicas em colaboração com colegas do HU, especialmente nas áreas das doenças neurodegenerativas e dos transtornos do neurodesenvolvimento. Minha relação com o Hospital também é pessoal.
Meus quatro filhos já foram atendidos, em diferentes momentos, pela emergência pediátrica do HU. Hoje, um deles cursa Nutrição na UFSC e realiza parte de sua formação acadêmica naquele mesmo ambiente que também marcou minha trajetória.
Essas experiências me permitiram enxergar o Hospital Universitário por diferentes ângulos: como estudante, professor, pesquisador, gestor, pai e cidadão. Talvez por isso a relatoria tenha significado mais do que a elaboração de um parecer técnico. Foi também a oportunidade de revisitar uma instituição que acompanha praticamente toda a minha vida universitária.
Em 2015, quando a UFSC discutiu a adesão à Ebserh, o debate foi marcado por forte polarização. De um lado, havia aqueles que defendiam a empresa pública como alternativa indispensável para enfrentar a grave crise vivida pelos hospitais universitários federais, caracterizada pela insuficiência de pessoal, limitações orçamentárias e dificuldades crescentes para manutenção dos serviços assistenciais. De outro, existiam preocupações igualmente legítimas quanto aos possíveis impactos da nova forma de gestão sobre a autonomia universitária, a identidade acadêmica do Hospital e as relações de trabalho.
Passados dez anos, entretanto, a realidade é outra. Hoje já não discutimos expectativas. Discutimos resultados. Durante a elaboração do parecer, tornou-se evidente que a experiência acumulada permite abandonar interpretações simplificadoras, segundo as quais o modelo teria sido um sucesso absoluto ou um fracasso completo. E essa experiência recomenda maturidade. O debate não pode permanecer preso à pergunta sobre ser “a favor” ou “contra” a Ebserh. A questão central, agora, é como aperfeiçoar a relação entre a UFSC e a HU Brasil para preservar o que avançou, corrigir o que se mostrou insuficiente e fortalecer aquilo que define um hospital universitário: a integração indissociável entre assistência, ensino, pesquisa, extensão e inovação.
A análise desenvolvida pela Comissão criada pela Reitoria em dezembro de 2023 para fiscalizar o cumprimento das metas de desempenho, dos indicadores e dos prazos de execução contratual demonstra que a gestão implantada pela Ebserh produziu avanços relevantes na recuperação da capacidade operacional do Hospital Universitário. Houve recomposição da força de trabalho, modernização da gestão administrativa, renovação tecnológica e fortalecimento da capacidade assistencial. Esses resultados não podem ser minimizados. Eles representam ganhos concretos para o SUS e para a sociedade catarinense. Ao mesmo tempo, limitar a avaliação do Hospital Universitário exclusivamente a esses indicadores significaria ignorar justamente
aquilo que diferencia um hospital universitário de qualquer outro hospital público. O HU da UFSC não existe apenas para prestar assistência. Existe para formar profissionais. Para produzir conhecimento. Para desenvolver pesquisa clínica. Para formar especialistas. Para inovar. Para integrar ensino, pesquisa, extensão e assistência em um mesmo ambiente institucional. Essa é sua
identidade. Foi exatamente nesse ponto que a Comissão identificou as principais oportunidades de aperfeiçoamento. Ao longo das reuniões realizadas entre 2024 e 2026, uma percepção apareceu de maneira recorrente nas manifestações de docentes, estudantes, coordenadores de curso, residentes e técnicos: a de que ocorreu um progressivo distanciamento entre o Hospital Universitário e as estruturas acadêmicas da própria Universidade.
É importante esclarecer o significado dessa afirmação. Não se trata de dizer que o Hospital deixou de pertencer à UFSC. O que muitos integrantes da comunidade universitária passaram a perceber foi algo mais sutil, mas igualmente relevante: um enfraquecimento do sentimento de pertencimento institucional. Manifestou-se nas dificuldades relatadas para abertura e manutenção de campos de estágio. Nas preocupações relacionadas à burocratização crescente dos processos acadêmicos. Na insuficiente valorização da preceptoria. Nas discussões sobre a manutenção de serviços essenciais para a formação profissional, como a emergência pediátrica. Na necessidade de maior diálogo entre a gestão hospitalar e os departamentos acadêmicos. Na sensação, expressa por diversos participantes, de que o planejamento assistencial nem sempre caminhava lado a lado com o planejamento acadêmico.
Essas manifestações não representam uma crítica aos profissionais do Hospital nem à dedicação das equipes assistenciais. Ao contrário. Talvez sejam justamente uma demonstração do quanto a comunidade universitária reconhece o valor estratégico do Hospital para a própria Universidade. Quando docentes e estudantes reivindicam maior integração entre o HU e a UFSC, não estão discutindo apenas modelos administrativos. Estão defendendo aquilo que constitui a essência de um hospital universitário. Na minha avaliação, esse foi o maior aprendizado produzido pelo processo de renovação contratual.
Se a principal contribuição da Comissão foi produzir uma avaliação crítica dos dez primeiros anos de vigência do Contrato Especial de Gestão, o principal legado do Conselho Universitário foi transformar esse aprendizado em uma agenda para o futuro. Ao deliberar sobre o processo, o CUn não se limitou a autorizar a continuidade das negociações entre a UFSC e a HU Brasil. Procurou estabelecer diretrizes capazes de orientar uma nova etapa da relação institucional entre a Universidade e o Hospital Universitário. Na minha compreensão, essa foi uma decisão particularmente importante.
Contratos administrativos têm vigência determinada. Mudam ao longo do tempo, são revisados, renegociados e eventualmente substituídos. Instituições, entretanto, precisam construir referências duradouras. Precisam transformar experiências em políticas institucionais. Foi exatamente isso que o Conselho Universitário procurou fazer. As dez Diretrizes Institucionais aprovadas ao final da relatoria representam uma visão sobre o Hospital Universitário que a UFSC pretende consolidar nos próximos anos.
O primeiro compromisso assumido pelo Conselho foi reafirmar uma característica que, embora pareça evidente, merece ser constantemente lembrada: o HU/UFSC continuará sendo, antes de tudo, um hospital-escola e um órgão suplementar da UFSC. Essa afirmação vai muito além de uma definição jurídica. Significa reconhecer que nenhuma decisão relacionada à organização dos serviços assistenciais pode ser tomada sem considerar seus reflexos sobre o ensino, a pesquisa, a extensão, a inovação e a formação de profissionais da saúde. Essa talvez seja a maior diferença entre um hospital universitário e qualquer outro hospital público.
Da mesma forma, o Conselho reafirmou que a relação entre a UFSC e a HU Brasil precisa evoluir para um modelo de governança mais compartilhado. A experiência da última década demonstrou que contratos dessa complexidade não podem ser acompanhados apenas ao final de sua vigência. Exigem monitoramento permanente, mecanismos institucionais de diálogo, prestação periódica de contas e participação contínua das estruturas acadêmicas da Universidade. Por essa razão, as diretrizes aprovadas apontam para a criação de uma cultura permanente de acompanhamento da execução contratual, baseada em transparência, avaliação e responsabilidade compartilhada.
Outro aspecto que merece destaque diz respeito aos indicadores utilizados para avaliar o desempenho do Hospital. Durante muito tempo, os resultados foram medidos quase exclusivamente por parâmetros assistenciais e financeiros. Esses indicadores continuarão sendo indispensáveis. Mas o Conselho Universitário reconheceu que eles são insuficientes para avaliar uma instituição cuja missão vai muito além da assistência. O Hospital Universitário também precisa ser avaliado pela qualidade da formação que oferece, pela produção científica que estimula, pelos programas de residência que desenvolve, pelas atividades de extensão que realiza, pela inovação que produz e pelas condições que oferece para a formação prática de estudantes. Em outras palavras, um hospital universitário precisa ser medido também pela sua capacidade de produzir conhecimento.
Outro avanço importante foi reconhecer que a formação em saúde depende diretamente das pessoas que ensinam dentro do Hospital. Ao longo dos trabalhos da Comissão, tornou-se evidente que a preceptoria constitui um dos pilares da qualidade da formação profissional. Valorizar esses profissionais, criar condições adequadas para o exercício dessa atividade e reconhecer institucionalmente sua importância deixou de ser apenas uma reivindicação dos cursos da área da saúde. Passou a integrar a própria estratégia institucional da Universidade para o Hospital Universitário.
As diretrizes também reafirmam a importância de ampliar a pesquisa clínica, fortalecer a inovação tecnológica, estimular estudos multicêntricos e consolidar o Hospital como ambiente de produção científica e de interação permanente com a sociedade. Da mesma forma, apontam para a necessidade de ampliar a transparência da gestão, com divulgação periódica dos principais indicadores assistenciais, acadêmicos, administrativos e financeiros, fortalecendo o controle social e a confiança da comunidade universitária.
Entretanto, na minha avaliação, talvez a diretriz mais importante seja aquela que quase passa despercebida. O Conselho Universitário decidiu que a experiência produzida pela Comissão não deveria terminar com a votação do parecer. Ao contrário. Determinou que ela se transformasse em uma política institucional permanente da Universidade.
Ao final dos trabalhos, a Universidade não produziu apenas uma nova minuta contratual. Produziu uma nova forma de compreender sua relação com o Hospital Universitário. Mais do que decidir sobre um contrato, o Conselho Universitário reafirmou um projeto institucional: consolidar o HU/UFSC como uma referência nacional entre os hospitais universitários federais, reconhecido não apenas pela qualidade da assistência prestada ao Sistema Único de Saúde, mas também pela excelência na formação de profissionais, na produção científica, na inovação e na integração entre Universidade e sociedade. Essa é uma ambição compatível com a história da UFSC.
Ao concluir a relatoria desse processo, saio convencido de que a principal contribuição produzida pelo Conselho Universitário não foi decidir sobre a renovação de um contrato. Foi demonstrar que a Universidade é capaz de refletir criticamente sobre suas próprias escolhas, reconhecer seus avanços, identificar suas fragilidades e transformar a experiência acumulada em diretrizes para o futuro. Essa talvez seja a essência da vida universitária.
Universidades não existem apenas para produzir conhecimento científico. Existem também para aprender institucionalmente. Quando uma universidade avalia suas políticas, revisa seus contratos, escuta sua comunidade e está disposta a aperfeiçoar suas decisões, ela reafirma seu compromisso com a sociedade e fortalece sua própria autonomia.
Os desafios que se apresentam à nova Reitoria não são pequenos. Será necessário concluir a negociação do novo Contrato Especial de Gestão, implementar as diretrizes aprovadas pelo Conselho Universitário, consolidar mecanismos permanentes de acompanhamento da execução contratual e fortalecer uma cultura institucional baseada no diálogo, na transparência e na avaliação contínua. Mais do que isso, será necessário reconstruir pontes. Pontes entre assistência e ensino. Entre gestão hospitalar e departamentos acadêmicos. Entre planejamento assistencial e planejamento universitário. Entre a excelência administrativa e a excelência acadêmica. Tenho convicção de que esse é o caminho para consolidar o HU/UFSC como referência nacional entre os hospitais universitários federais.
Gostaria de concluir recorrendo às palavras de um dos maiores compositores da música brasileira. Em “Velha Roupa Colorida”, lançada em 1976, Belchior escreveu que “o passado é uma roupa que não nos serve mais.” Esse verso nunca significou desprezar a história. Significa reconhecer que nenhuma instituição permanece viva se insistir em repetir, indefinidamente, as respostas do passado para enfrentar os desafios do presente. Talvez essa seja a maior lição produzida pelo processo de renovação do Contrato Especial de Gestão. Os últimos dez anos não devem ser vistos como argumento para celebrar ou condenar um modelo de gestão. Devem ser compreendidos como uma oportunidade de aprendizagem institucional.
A verdadeira questão nunca foi escolher entre a Universidade ou o Hospital. Entre assistência ou ensino. Entre gestão ou autonomia. O verdadeiro desafio é fortalecer todas essas dimensões de forma integrada. Porque hospitais podem ser administrados por diferentes modelos de gestão. Mas somente uma universidade é capaz de transformar um hospital em um verdadeiro hospital universitário. Preservar essa identidade talvez seja a maior responsabilidade da próxima Reitoria, e a principal lição que a primeira década de gestão do Hospital Universitário da UFSC pela Ebserh deixa para toda a nossa comunidade universitária.
*Rui Daniel Prediger é professor titular do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diretor do Centro de Ciências Biológicas (CCB/UFSC), e relator do Processo de Renovação do Contrato Especial de Gestão UFSC–HU Brasil no Conselho Universitário.
Artigo enviado às 20h do dia 5 de julho de 2026 e publicado às 15h21 do dia 6 de julho de 2026
