Especialistas da USP afirmam que dificuldades começam antes da universidade e defendem mudanças na formação inicial e na valorização da carreira docente
A qualidade da educação depende, em grande parte, da qualidade dos professores. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esses profissionais representam o fator escolar com maior impacto na aprendizagem dos estudantes. No Brasil, porém, a primeira edição da Prova Nacional Docente revelou um cenário de mais de 260 mil futuros professores que não alcançaram o nível mínimo de proficiência no exame aplicado em 2025 pelo Ministério da Educação. Os resultados refletem um contexto de baixa atratividade da carreira docente, em que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos afirmam querer seguir a profissão, segundo o relatório Global Status of Teachers 2024.
Esse cenário também se reflete na percepção social da profissão, como apontado pelo relatório Global Teacher Status Index 2018, da Varkey Foundation, entidade sem fins lucrativos sediada em Londres, Inglaterra, que colocou o País em última posição entre as 35 nações avaliados em relação à valorização social dos professores. Numa escala de zero a 100, o Brasil ficou com 1 ponto.
Para a pesquisadora em Gestão Educacional Roberta Loboda Nastari, do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (Lepes) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da Universidade de São Paulo (USP), esse quadro é resultado de problemas estruturais que começam antes mesmo da graduação. Segundo Roberta, fatores como a baixa atratividade da carreira docente, a qualidade insuficiente de parte dos cursos de licenciatura e as fragilidades da educação básica formam um ciclo que compromete a preparação dos futuros professores.
A pesquisadora destaca que a profissão ainda enfrenta desafios relacionados à remuneração, às condições de trabalho e à valorização social, fatores que dificultam a atração e a permanência de estudantes com alto desempenho na carreira docente. “O ensino superior para a formação dos licenciados raramente é capaz de reverter esse cenário em que os estudantes com maior defasagem, oriundos da educação básica, passam a apresentar bons resultados ao final da graduação. Esse cenário é agravado pela expansão da modalidade EAD.”
Segundo Roberta, em dez anos, a proporção de concluintes formados nessa modalidade passou de 34% para 66%, e os dados da Prova Nacional Docente indicam desempenho inferior desses estudantes em relação aos formados em cursos presenciais. “Portanto, esses resultados ruins não são uma surpresa, infelizmente, mas sim um reflexo de um sistema que falha desde a formação escolar básica, passa pela falta de alinhamento entre o que é ensinado pelos cursos de ensino superior das licenciaturas e a real necessidade formativa dos nossos professores.”
Conexão entre teoria e prática
Outro ponto levantado pela pesquisadora é que muitos cursos ainda apresentam dificuldades para integrar o domínio dos conteúdos específicos com o chamado “conhecimento pedagógico”, ou seja, a capacidade de ensinar esses conteúdos de forma eficiente. Além disso, estágios supervisionados pouco estruturados acabam afastando os licenciandos da realidade das escolas, reduzindo as oportunidades de desenvolver habilidades essenciais para a prática docente.
Para Roberta, os cursos de licenciatura também precisam aproximar seus currículos das competências exigidas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), fortalecendo tanto o domínio do conteúdo quanto as metodologias de ensino.
A pedagoga e cocoordenadora da agenda de Primeira Infância do Lepes, Camila Martins de Souza Silva, avalia que a formação inicial dos professores deve ser analisada como parte de um processo contínuo de desenvolvimento profissional. Segundo Camila, não é possível discutir apenas a graduação sem considerar aspectos como as condições de ingresso na carreira, a formação continuada, o acompanhamento pedagógico e as condições de trabalho encontradas nas escolas.
Camila explica que a ampliação do acesso ao ensino superior aumentou a oferta de cursos de licenciatura, especialmente em instituições privadas e na modalidade a distância. Para ela, o desafio não está na modalidade em si, mas na grande diferença de qualidade entre os cursos. “Então a questão não é deixar de ter curso a distância ou não, mas como esse curso é feito e intrinsecamente se o exercício docente, se o desenvolvimento profissional passa pela experiência prática com supervisão.”
Formação contínua depois do diploma
Segundo a pedagoga, a formação inicial precisa equilibrar conhecimentos teóricos sobre educação com experiências práticas que preparem os futuros docentes para os desafios reais da sala de aula. “Ensinar é uma atividade profissional especializada. Não basta dominar o conteúdo, é preciso saber transformá-lo em experiências que promovam aprendizagem. Por isso, os estágios supervisionados precisam ser profundamente fortalecidos, com observação da prática e devolutivas sistemáticas.”
Além da formação inicial, Camila considera fundamental criar políticas de apoio aos professores nos primeiros anos da carreira. “Melhorar a formação é indispensável, mas não é suficiente. Precisamos tratar esse problema como uma política sistêmica, que articule qualidade da formação inicial, estágios consistentes, parceria entre universidade e escola, apoio aos professores iniciantes, formação continuada, acompanhamento pedagógico, carreira, reconhecimento público, remuneração e condições de trabalho. A formação não termina com o diploma, ela se constrói ao longo da carreira”, finaliza.
Fonte: Jornal da USP
