*Por Gelson Luiz de Albuquerque e Sérgio Freitas
Gelson é usuário da Unimed desde 1984. São 42 anos de vinculação, inicialmente no Rio Grande do Sul, depois no Paraná e, desde 1992, em Santa Catarina, por meio dos contratos mantidos primeiro pela Apufsc e, posteriormente, pela UFSC. Sérgio, por sua vez, possui 25 anos de vinculação, também por meio da Apufsc e da UFSC.
Depois de relações tão longas, não é sem pesar que fazemos esta constatação: nos últimos anos, a relação entre a Unimed Grande Florianópolis e seus usuários tornou-se tóxica e, sob diversos aspectos, abusiva.
Os reajustes têm alcançado percentuais muito superiores aos índices inflacionários. É verdade que inflação e reajuste de plano de saúde não podem ser comparados de maneira automática, pois as mensalidades também dependem da utilização dos serviços e dos cálculos de sinistralidade. O problema central, contudo, é justamente a falta de transparência: os usuários não recebem informações suficientemente detalhadas para conferir os custos alegados, avaliar a sinistralidade e distinguir o que efetivamente corresponde às despesas assistenciais, à administração do contrato e ao resultado econômico da operadora.
Diferentemente do que ocorre nos planos de autogestão, não dispomos de instrumentos efetivos para acompanhar e auditar esses números. Pagamos a conta, mas não temos acesso adequado às bases utilizadas para calculá-la.
O preço aumenta e o atendimento piora
Enquanto as mensalidades sobem, o acesso aos serviços se deteriora. Os agendamentos passaram a exigir longos períodos de espera. Em diversas especialidades, não encontramos profissionais disponíveis para atendimento pelo convênio, embora o objeto da contratação devesse assegurar uma rede capaz de prestar esses serviços.
A eventual incompatibilidade entre a rede efetivamente disponibilizada e aquela prevista no contrato precisa ser examinada pela UFSC e pelas entidades sindicais, inclusive sob o ponto de vista jurídico. Não basta informar aos usuários que determinado profissional ou serviço consta em uma relação formal: é necessário que o atendimento esteja efetivamente disponível em prazo razoável.
Quando não há profissional credenciado disponível, a Unimed oferece como alternativa o pagamento particular, seguido de pedido de reembolso. Essa solução, entretanto, transfere aos usuários uma obrigação que deveria ser cumprida diretamente pela operadora. Primeiro, precisamos localizar o profissional; depois, pagar pelo atendimento; em seguida, enfrentar um percurso burocrático para obter autorização e ressarcimento. Por fim, essa mesma despesa passa a integrar o cálculo da sinistralidade utilizado para justificar novos e elevados aumentos.
Forma-se, assim, um círculo perverso: a operadora não oferece o atendimento contratado, o usuário antecipa o pagamento para não ficar desassistido e o custo retorna posteriormente como argumento para elevar as mensalidades.
Também aumentou consideravelmente o tempo de espera por exames de diagnóstico por imagem. Muitos colegas são obrigados a se deslocar para outras regiões em busca de atendimento mais célere, especialmente quando a definição do diagnóstico não pode esperar.
Paralelamente, diversos médicos mais experientes deixaram, há muito tempo, de atender pela Unimed. Os usuários, por confiarem nesses profissionais ou por desejarem preservar a continuidade do tratamento, acabam pagando consultas particulares. O plano fica restrito, muitas vezes, à cobertura dos exames solicitados nessas consultas. Pagamos, portanto, por um plano de assistência médica que nem sempre consegue assegurar o próprio atendimento médico de que necessitamos.
Burocracia, centralização e falta de acolhimento
Os serviços de atenção domiciliar são limitados, burocráticos e pouco personalizados, distantes de experiências mais abrangentes e humanizadas oferecidas por operadoras congêneres em outras capitais, como Porto Alegre.
A crescente centralização do atendimento em canais digitais também impõe barreiras aos usuários que têm limitações no uso dessas tecnologias. Os pontos de atendimento presencial são poucos e estão concentrados em uma única região da cidade. Em vez de facilitar o acesso, o modelo transfere dificuldades adicionais justamente às pessoas idosas, enfermas ou em situação de maior vulnerabilidade.
A rede hospitalar própria, por sua vez, não parece crescer na mesma proporção que as necessidades dos usuários. As consequências são filas, demora nas internações e pacientes aguardando em macas até que surja um leito. Aquilo que deveria proporcionar segurança diante de uma doença transforma-se, com frequência cada vez maior, em um verdadeiro calvário.
Há ainda um problema relacionado à concorrência. A forte concentração dos serviços em torno da Unimed restringe as alternativas disponíveis. Mesmo profissionais que deixaram de atender diretamente pelo plano permanecem vinculados a redes e estabelecimentos que também prestam serviços à operadora. Esse ambiente dificulta a formação de opções efetivamente independentes e reduz a capacidade de escolha dos usuários.
Um problema que também envolve a gestão da UFSC
Em dezembro de 2025, publicamos o artigo “De emergência em emergência: a incapacidade administrativa que encarece a vida dos servidores da UFSC”. Naquele texto, mostramos que a gestão do plano passou das entidades sindicais para a UFSC em 2008 e que o antigo modelo solidário, com valor único para todas as faixas etárias, permaneceu até 2019.
Também apontamos que, nos anos mais recentes, o acompanhamento compartilhado do contrato foi substituído por decisões cada vez mais concentradas na Administração Central. Entre 2022 e novembro de 2025, os reajustes acumulados chegaram a 71,35% em todas as faixas etárias. Com o contrato emergencial apresentado no final de 2025, a variação acumulada passaria a ficar entre 60,40% e 106%, conforme a faixa etária.
O volume financeiro anual do contrato, que era de aproximadamente R$ 75 milhões em 2019, chegou a R$ 161 milhões em 2024 — crescimento de 114,66%, diante de uma inflação acumulada de 39,21% no mesmo período. Embora sejam indicadores de natureza diferente, a disparidade demonstra o enorme impacto sobre o orçamento dos servidores e reforça a necessidade de uma negociação rigorosa e transparente.
Questionamos, ainda, a elevação da coparticipação de 20% para 50%, sem a apresentação pública de estudos técnicos suficientes e sem uma discussão efetiva com os usuários. Demonstramos que a coparticipação afeta proporcionalmente mais quem recebe menos e pode ocultar parte substancial do aumento real do custo do plano.
Outro ponto grave foi a celebração de dois contratos emergenciais consecutivos. Enquanto administrações anteriores conseguiram estabelecer contratos duradouros, discutidos e planejados, os servidores passaram a ser submetidos a negociações de última hora, com menor capacidade de barganha e pouca participação. Permaneceram sem resposta perguntas essenciais sobre custos, utilização, critérios atuariais, modalidades de cobertura e alternativas de autogestão.
O problema, portanto, não pode ser atribuído exclusivamente à Unimed. A UFSC é responsável por fiscalizar e administrar o contrato, exigir o cumprimento das obrigações, assegurar transparência e defender os interesses dos servidores que sustentam financeiramente o plano. As entidades representativas dos trabalhadores também precisam acompanhar permanentemente a qualidade da rede e os critérios utilizados nos reajustes.
É hora de exigir respeito
Após décadas de vínculo, não podemos aceitar que nossa fidelidade seja respondida com mensalidades crescentes, redução da rede, demora nos atendimentos, burocracia, falta de leitos e ausência de transparência.
Precisamos construir um movimento amplo de usuários, servidores ativos e aposentados, docentes e técnico-administrativos, para exigir, independentemente de qual venha a ser a operadora do plano de atenção à saúde suplementar da UFSC:
- divulgação das planilhas de custos e dos cálculos de sinistralidade;
- auditoria independente e participação dos usuários no acompanhamento do contrato;
- fiscalização efetiva da rede credenciada prevista na contratação;
- garantia de acesso a especialistas, exames e internações em prazos razoáveis;
- ampliação e descentralização do atendimento presencial;
- compromisso da operadora com a ampliação imediata do número de leitos hospitalares disponíveis;
- oferta de planos que permitam a inclusão de outros agregados por parentesco consanguíneo ou por afinidade, contribuindo para a ampliação e a renovação da base de beneficiários;
- liberdade para que dependentes e agregados escolham entre os planos ofertados, sem a obrigatoriedade de adesão à mesma modalidade contratada pelo titular;
- possibilidade de responsabilização financeira independente para titulares, dependentes e agregados;
- criação de clínicas multiprofissionais presenciais destinadas a ações de prevenção de doenças e promoção da saúde;
- revisão dos procedimentos de reembolso e dos serviços de atenção domiciliar;
- avaliação de alternativas, inclusive de planos de autogestão, como os oferecidos pela Geap e pela Assefaz;
- participação efetiva das entidades sindicais nas negociações e decisões;
- planejamento de uma contratação estável, transparente e tecnicamente fundamentada.
Não queremos privilégios. Queremos receber, com qualidade e dignidade, o serviço pelo qual pagamos — e pagamos caro.
Uma relação construída ao longo de décadas não pode continuar baseada na falta de informações, na transferência de responsabilidades e no enfraquecimento progressivo da assistência. Está na hora de dar um basta nessa situação e organizar uma resposta coletiva para que a Unimed Grande Florianópolis e a própria UFSC respeitem os usuários do plano.
Talvez também tenha chegado o momento de avaliarmos, de maneira séria e consistente, a necessidade de romper essa relação que nos sufoca e maltrata. Há alternativas de autogestão, como a Geap e a Assefaz. Para isso, porém, será necessário romper com uma cultura de conformismo que apresenta o modelo vigente como se não houvesse outra solução.
Há, sim, alternativas. Elas estão diante de nossos olhos e precisam ser analisadas com transparência, responsabilidade e participação coletiva.
Sair de uma relação abusiva é necessário! E urgente!
*Gelson Luiz de Albuquerque é professor titular aposentado do Departamento de Enfermagem (NFR/UFSC); Sérgio Fernando Torres de Freitas é professor titular aposentado do Departamento de Saúde Pública (SPB/UFSC);
Artigo recebido às 19h57 do dia 24 de setembro de 2026 e publicado às 8h25 do dia 25 de setembro de 2026.
