Na edição 642 de nosso Boletim sugeri uma avaliação sobre a tentativa em curso de refundar nosso sindicato. Com evidente irritação, os professores Nestor Roqueiro e PC Philipi tentaram desqualificar meus argumentos com vários adjetivos pouco elogiosos e algumas obviedades. Meu retorno ao tema, mais que uma resposta a eles, decorre da necessidade de reflexão sobre a escolha que faremos no segundo semestre quando votaremos na eleição para a nova diretoria da Apusfc e sobre o tipo de sindicalismo que necessitamos.
As questões por mim levantadas não foram respondidas por meus opositores. Eles basicamente se limitaram a me adjetivar e alterar meus argumentos para melhor combatê-los. O sardo Antonio Gramsci recomendava “ser justo com os adversários”. Justiça, na batalha das idéias, consiste em algo decisivo: “esforçar-se por compreender o que realmente queriam dizer e não aferrar-se, maliciosamente, nos significados superficiais e imediatos de suas expressões”. Neste sentido, meus adversários não foram honestos intelectualmente. Agora, tentarei uma versão plebéia para insistir nos mesmos temas que foram considerados por meus opositores como produto da “erudição e verborragia”.
O primeiro problema que indiquei foi a necessidade de discutir a silenciosa “transformação empresarial da universidade brasileira”. Meus “críticos” escrevem que eu critico o “projeto de transformação da universidade em fábrica” (sic) e que eu estaria confrontando-a com a defesa do “crescimento individual acadêmico de cada professor”. Jamais escrevi tal asneira por uma razão muito simples: os empresários brasileiros não querem transformar a universidade em fábrica, mas em algo muito melhor. Na verdade, pretendem transformar algumas de nossas áreas de pesquisa no departamento científico de suas empresas, o que é substancialmente diferente. Eles querem que trabalhemos cientificamente para seus interesses! A razão é também bem simples, pois as empresas brasileiras contratam doutores só marginalmente, considerando que é muito mais barato e conveniente buscar nos departamentos das universidades os técnicos que eventualmente necessitam. Além disso, por meio desta associação, o empresário recebe o financiamento para política industrial com “legitimidade científica” (Finep, por exemplo) e encontra no campus universitário um terreno fértil para tal: aquilo que PC Philipi chama de “fortalecimento acadêmico” da universidade.
Desde a perspectiva universitária, o problema se apresenta em outros termos. A pesquisa universitária dominante entre nós não gera “patentes” e o necessário reforço orçamentário da instituição – se tornou, na prática, um simples apêndice da política industrial. Basta consultar os dados oficiais da UFSC para perceber a triste realidade de nossos pesquisadores de excelência: eles não conquistam patentes embora muitos projetos sejam turbinados durante anos com recursos consideráveis. Em termos empresariais é de fácil constatação que a relação custo-benefício não compensa para a universidade, embora consagre os interesses pecuniários de alguns poucos professores. Diante deste fracasso científico evidente, o professor-empreendedor identifica o seu fazer universitário com o que candidamente chama de “fortalecimento acadêmico do professor” e mais perverso ainda, ele pretende impor aos demais este padrão de trabalho universitário. Tal orientação constitui um desastre para o futuro da pesquisa, reduz o horizonte da experiência universitária brasileira e é inaceitável para as demais áreas de conhecimento. Esta não é uma avaliação em defesa das ciências humanas, atualmente confinadas à marginalidade, mas uma realidade para a área médica, esportiva e, especialmente, as ciências básicas (física, matemática) que, na situação atual, somente adquirem certa importância na exata medida em que terminam “terceirizadas” pela área tecnológica.
A relação universidade-empresa é necessária para o sistema Ifes. Mas é preciso dizer claramente que, se os empresários não investem nas universidades públicas, não se deve a supostas resistências ideológicas de alguns professores, mas ao DNA do empresariado brasileiro que não vê conveniência econômica nesta relação. Por outro lado, mesmo que a universidade fosse absolutamente pública, ela não deixaria de ser uma instituição comprometida com os interesses dominantes, a serviço do estado brasileiro. Por isso não basta – ainda que seja necessário – lutar por políticas públicas desde a universidade. Temos que ir além. É preciso redefinir o padrão de trabalho acadêmico dominante e as funções sociais da universidade. Neste contexto, a relação universidade-empresa, tal como é atualmente praticada, reproduz nossas desigualdades históricas, entre outros males. Por isso precisa de controle, supervisão e diretriz. Tudo que não temos hoje.
O segundo problema indicado em meu artigo se referia ao isolamento social da universidade e do professor. Meus críticos afirmam que “somos professores e a sociedade que nos paga espera que, em nossa função, encontremos as soluções para os seus problemas e para a realização de suas aspirações”. No entanto, ao mesmo tempo em que forçadamente reconhecem as exigências legítimas da “sociedade civil” sobre a universidade, eles criaram uma “teoria” simpática para iludir estas mesmas exigências. Eles indicam que devemos evitar a confusão entre o “professor” e o “cidadão”. Eles dizem que “o professor confunde-se com o cidadão e traz o cidadão aqui para dentro. E, aqui dentro, age como cidadão. E, como cidadão, deixa de ser professor. Abraça a causa do sopão e não se dá conta que precisa ser professor para acabar com o sopão”. Jamais ouvi algo semelhante, mas creio que é produto de uma velha hipótese, ou seja, a defesa da assepsia na produção do conhecimento, a sisuda e conhecida neutralidade científica agora apresentada de maneira infantil. Ora, na formulação clássica, a “sociedade civil” é o espaço do conflito social, mas na versão interessada, parece ser um espaço onde predomina o bem comum, contra o Estado (a sociedade política), aquele ente considerado “malvado”. Meus opositores apresentam o conceito de “sociedade civil” sem sua “medula econômica” de tal forma que o fruto do trabalho do Laboratório de Meios Porosos e Propriedades Termofisicas (LMPT) serviria tanto ao gari da Comcap quanto ao empresário que se beneficiou com o financiamento do Finep. Alguém poderia acreditar?
Enfim, o liberalismo atual não possui nem de longe a vitalidade que de alguma forma revelou no passado. Quem quiser comprovar, leia o ensaio publicado no último livro das professoras Olinda Evangelista e Silvia Lima, sobre a atuação de Fernando de Azevedo, o educador e sociólogo da primeira metade do século passado (Fernando de Azevedo: sociólogo e educador, Editora da UFSC, 2008). Azevedo era o que podemos chamar de um liberal autêntico que reivindicou a “ciência desinteressada” e reclamou a superação de um sistema em que os problemas suscitados pela sociedade, “continuavam entregues aos práticos sem técnica e aos técnicos sem ciência”. Não creio que estamos muito longe daquele diagnóstico, com a diferença de que não existem mais liberais dispostos a dar respostas às limitações científicas e tecnológicas do país. O utilitarismo, sem dúvida alguma, venceu. Pelo menos por enquanto.
O terceiro problema é uma decorrência direta dos anteriores. Que tipo de sindicato necessitamos? Eles defendem uma “mudança cultural” no sindicalismo, destinada ao “fortalecimento acadêmico da universidade”. O professor Nestor Roqueiro não deixa dúvidas a respeito de outro aspecto importante: “sindicato é para cuidar principalmente do salário dos professores. Se não fizer isto bem não tem nada mais o que fazer”. As duas propostas não são incompatíveis, pois articuladas garantiriam, de um lado, o reforço do economicismo que de certa forma já nos caracteriza e, de outro, a segurança de que o sindicato não deve opor-se à transformação empresarial da universidade brasileira (“mudança cultural”). Este modelo existe? É o Proifes, versão tardia de sindicalismo de resultado sem ganhos salariais significativos. Nós todos sabemos que em uma decisão sobre o que fazer com os aposentados, por exemplo, o Proifes não vacilaria em abandoná-los caso fossem apresentados como moeda de troca para um reajuste salarial maior para os professores da ativa. O Proifes é uma peça na reconfiguração do modelo universitário brasileiro.
Qual a relação deste novo sindicato, produto da “mudança cultural” proposta, com as Fundações? PC Philipi invoca o exemplo da PUC de Curitiba e da PUC do Rio em que deveríamos nos espelhar. Seria um absurdo não fosse um artifício para iludir. Ora, a PUC é considerada uma universidade “confessional”, filantrópica, regida pelo direito privado. Portanto, possui natureza jurídica completamente diferente do sistema IFES. Em uma república laica não deveriam existir, simplesmente. Entraram em profunda crise econômica e não restou alternativa senão buscar apoio estatal. Enfim, um exemplo de outro planeta. Os nossos desafios são distintos do “sistema PUC”, pois a crise nacional das fundações de apoio – com intervenções, prisões de ex-reitores, etc. – evidenciou problemas que necessitam uma resposta adequada. O que um sindicato pode fazer nesta crise? Como um sindicato deveria proceder caso um de nossos laboratórios fosse dado como garantia para pagamento de dívidas trabalhistas de uma de nossas Fundações? É um assunto sindical ou deveríamos simplesmente ignorar? O que um sindicato deveria fazer diante de uma Fundação sob intervenção? Fazer de conta que nada ocorreu ou interessar-se pelo bom funcionamento da UFSC como instituição republicana e informar aos professores de maneira transparente sobre os descaminhos desta relação?
Na Inglaterra, onde parte considerável dos problemas básicos dos ingleses foi resolvida pelas revoluções nos séculos XVIII e XIX, é compreensível (ainda que inaceitável) a assepsia intelectual de suas universidades e as formas de controle e incentivo reservado aos professores. Mas na periferia, onde o Estado é comandado por uma elite que a outra tarefa não se dedica senão a perpetuação do subdesenvolvimento, se comportar como ingleses é uma grave omissão e, muito provavelmente, a forma educada de cumplicidade com os donos do poder. A defesa de um projeto universitário cujo centro é o “fortalecimento acadêmico da universidade” com o correspondente sindicalismo apolítico que sem inibições surgiu agora entre nós, não passa de uma utopia reacionária com nome simpático.
