Soberania nacional está atrelada à pós-graduação, defende presidente da Capes

Para Denise Carvalho, subfinanciamento crônico como o principal obstáculo para o desenvolvimento científico brasileiro

A pós-graduação brasileira é a engrenagem fundamental para que o país supere a condição de exportador de commodities e se consolide como uma nação soberana, capaz de produzir inovação e conhecimento de forma autônoma. Essa tese orientou a conferência Avanços e perspectivas para o futuro da pós-graduação no Brasil, ministrada na tarde desta sexta-feira, dia 27, pela presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho.

O evento, com participação online da presidente da Capes, integrou as celebrações dos 60 anos da Pró-reitoria de Pesquisa (PRPq) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Denise Carvalho apresentou um balanço da última avaliação quadrienal (2021-2024). “Não há possibilidade de inovação sem produção de conhecimento nacional. É por meio da formação de mestres e doutores que vamos nos tornar uma nação verdadeiramente soberana”, afirmou.

Superação de gargalos

Ao analisar o panorama histórico da pós-graduação, Denise Carvalho sublinhou que a excelência acadêmica está intrinsecamente ligada à continuidade do investimento público. Ela classificou o subfinanciamento crônico como o principal obstáculo para o desenvolvimento científico brasileiro. Segundo a presidente da fundação, 70% dos programas com nota 3 que receberam aportes estratégicos da Capes a partir de 2023 conseguiram subir de nível na avaliação.

A recuperação orçamentária também foi abordada por Denise Carvalho. Ela destacou que, graças à recomposição do orçamento ocorrida em 2023 e 2024, o montante investido pela fundação em bolsas e custeio registrou incremento de 62% em relação ao valor executado em 2022. “O maior gargalo não é a nossa estruturação ou capacidade intelectual, mas a questão financeira”, pontuou.

Denise também propôs a reflexão sobre a redução das assimetrias regionais na ciência. Embora o Sul e o Sudeste concentrem o maior volume de programas de excelência, a região Norte foi a que registrou o maior avanço percentual em qualidade no último ciclo.

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires apresentou uma análise demográfica inédita, cruzando a oferta de cursos de pós-graduação com a população graduada de cada região. O diagnóstico revela que a raiz do problema reside na base: apenas 20,4% da população brasileira tem diploma de ensino superior, índice que sobe para 23% na faixa acima de 25 anos. O número é drasticamente inferior aos 40% registrados pela média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Precisamos aumentar o número de vagas de graduação de qualidade para que possamos, consequentemente, expandir a pós-graduação”, enfatizou.

Outro avanço estratégico mencionado foi a mudança na política de periódicos da Capes. A fundação deixou de firmar acordos apenas para leitura (acesso aos textos) e passou a negociar acordos transformativos, que incluem o custeio da publicação de artigos por brasileiros em revistas de alto impacto (Open Access). A estratégia, iniciada com a American Chemical Society e expandida para editoras como Elsevier e Nature, visa projetar a ciência produzida no Brasil para o topo do ranking mundial. Atualmente, o país ocupa a 13ª posição em produção científica global.

Fonte: UFMG