“As previsões já indicam com maior certeza um El Niño forte”, explica cientista da UFSC

Especialista afirma que até o final do outono haverá mais certeza quanto a intensidade do fenômeno

Ouvir a ciência é uma das práticas mais importantes para tomar decisões que envolvem emergências. A previsão de chegada de um evento climático que ocorre com cada vez mais frequência e intensidade no país intensifica a busca por respostas sobre o que está por vir. Em março, uma previsão de El Niño “de moderado a forte” começou a ser emitida e desde então o cenário é de incertezas, mesmo com os modelos climáticos cada vez mais aprimorados.

Professora foi entrevistada pela TV UFSC. (Foto: UFSC)

A professora da UFSC, Regina Rodrigues, da coordenadoria de Oceanografia, é uma das maiores autoridades no assunto. Liderança na Organização Mundial de Meteorologia, ela foi orientada no pós-doutorado pelo cientista Michael McPhaden, considerado o “Papa” das pesquisas sobre esse fenômeno e cientista sênior da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que monitora os eventos. Ela assina papers com ele sobre o assunto.

Regina explica que, até o final do Outono, haverá mais certeza quanto a intensidade do fenômeno que vem sendo comentado e aguardando. Ainda assim, sua dimensão e localização geográfica dependem de fatores que podem variar. A probabilidade de que o evento seja intenso, entretanto, está cada vez mais confirmada.

“Em março, um sinal forte de um El Niño moderado a forte começou a aparecer nas previsões. No entanto, existe uma ‘barreira da primavera’ (outono no hemisfério sul) na previsão do El Niño, onde o sistema físico de interação atmosfera-oceano pode mudar. Se a previsão se mantiver no final de maio, é muito provável que o El Niño se perpetue. As previsões mais recentes da NOAA já indicam com maior certeza um El Niño forte”, explica.

A intensidade do El Niño não é o único fator que determina o quanto os eventos extremos podem se materializar no Brasil, onde em 2024 houve uma enchente de grandes proporções que atingiu o Rio Grande do Sul. A posição da água quente no Pacífico também tem impacto nos sistemas climáticos locais. “Por exemplo, as chuvas no Sul são frequentemente causadas por um bloqueio atmosférico no Sudeste, que impede a passagem de frentes frias, concentrando a chuva em uma única região. Isso ocorreu em 1983 no Vale do Itajaí e em 2024 no Rio Grande do Sul”, explica Regina.

Nesse aspecto, ainda não há como definir qual será essa posição quando o evento tiver seus primeiros efeitos. Segundo a pesquisadora, a localização exata da água mais quente no Pacífico ainda é incerta e será melhor compreendida à medida que o fenômeno evolui. “O El Niño geralmente se intensifica em julho-agosto, atinge o pico em novembro-dezembro-janeiro (verão no hemisfério sul) e decai no ano seguinte, durando cerca de um ano”.

Fim dos anos neutros?

A professora explica que El Niño e La Niña são fenômenos naturais, mas o que tem acontecido é fruto da ação humana. Isso porque existe uma alternância entre eles, ano após ano, com cada vez menor ocorrência dos “anos neutros”, quando nenhum deles ocorre.

De acordo com ela, isso acontece porque a atividade humana está adicionando cada vez mais calor no sistema da Terra. “Estamos saindo do equilíbrio energético e esse fenômeno, que é um fenômeno natural, está começando a tentar reagir a essa falta de equilíbrio”, diz. Isso promove uma alternância cada vez mais brusca entre El Niño e La Niña, com a ocorrência de mais eventos extremos e de maior intensidade. Por exemplo, nos anos de El Niño há cheias frequentes no Sul, enquanto a La Niña produz secas fortes.

É como se houvesse uma gangorra acelerada regendo o sistema. “É inédito ter dois eventos fortes em menos de dois anos, o que é um claro efeito do desequilíbrio energético causado pelas mudanças climáticas”, pondera. “A atmosfera mais quente intensifica os efeitos do El Niño. Uma atmosfera mais quente retira mais umidade, tornando as secas mais severas, e em áreas de chuva, a umidade adicional resulta em chuvas mais torrenciais e concentradas, como observado nas enchentes do Rio Grande do Sul”.

O que fazer?

Os alertas emitidos pela meteorologia estão exigindo mobilização por parte dos agentes políticos que, na opinião de Regina, precisam ser cobrados pela sociedade. Para ela, as medidas de longo prazo, como respeitar áreas de preservação ambiental, não podem ser desprezadas: isso porque, além de contribuir para o aquecimento da Terra, a ocupação destes espaços destrói aquilo que pode conter os eventos extremos, já que áreas de vegetação nativa absorvem mais água da chuvas, naquilo que é chamado de efeito esponja.

Ainda assim, é possível que cidades e estados se organizem de forma preventiva e com medidas de emergência, como a manutenção dos sistemas de drenagem da cidade, garantindo que estejam limpos e funcionando adequadamente. Os ajustes pontuais, sem necessidade de obras estruturais, precisam vir acompanhados de planos de contingência.

“É preciso desenvolver e comunicar planos claros para a população, incluindo rotas de evacuação, locais de abrigo (ginásios, escolas públicas) e como as pessoas serão informadas”, aponta. Treinar e educar a população sobre o que fazer em caso de desastres também se torna cada vez mais relevante. Mas também é preciso cautela: promover o pânico com mensagens alarmistas pode acabar gerando desabastecimento e influenciar na cadeia econômica, como quando os cidadãos fazem estoques de alimentos.

“Além disso, a troca de informações entre cidades e a disseminação de boas práticas são essenciais para evitar que cada município precise reinventar soluções. Investir em planejamento, identificando áreas de risco, é uma medida de baixo custo com grande impacto”, diz Regina.

O que é o El Niño

O El Niño é um aquecimento das águas do Pacífico. Como o Pacífico ocupa metade do Globo em extensão, qualquer alteração que ocorra nele tem impacto global. “O El Niño é marcado pelo enfraquecimento dos ventos alísios, o que faz com que a água quente se mova um pouco para leste. Isso altera todo o sistema climático, pois na região tropical os oceanos desempenham um papel crucial na atmosfera”, explica.

A mudança na posição da água quente acaba afetando a convecção e a formação de nuvens altas, que geram ondas atmosféricas que modificam a circulação climática global, impactando significativamente a América do Sul, que está próxima. “Esse fenômeno é uma interação entre a atmosfera e o oceano”, comenta.

A La Niña, por outro lado, é o oposto, com a intensificação dos ventos alísios que empurram a água quente para fora do Pacífico e geram um resfriamento anormal da região. “Assim como o El Niño, a La Niña também impacta o clima global, mas de forma inversa”.

Para Regina, é fundamental que a população esteja informada sobre os impactos do fenômeno em tempos de eventos extremos e exija a implementação de medidas de prevenção e adaptação. “A conscientização sobre os impactos das mudanças climáticas e a consideração desses fatores nas decisões políticas, como o planejamento urbano e o desenvolvimento econômico, são fundamentais. Construir mais prédios sem planejamento adequado, por exemplo, pode agravar os problemas”.

Fonte: Notícias UFSC