*Por João Luiz Martins
Dos muitos temas desafiadores que hoje se colocam diante das universidades, certamente a Inteligência Artificial é aquele que mais desperta interesse, inquietação e curiosidade. Seus impactos já começam a transformar profundamente a educação, a pesquisa, o trabalho, a produção do conhecimento e as relações humanas, exigindo das universidades reflexão crítica, responsabilidade e capacidade de adaptação.
Minha passagem por este espaço consiste justamente em contribuir para esse debate. Antes, porém, registro o importante momento democrático vivenciado recentemente pela UFSC – o processo eleitoral para escolha da nova reitoria. Aproveito a oportunidade para agradecer ao coletivo de docentes, técnicos-administrativos e estudantes que contribuíram para fortalecer o debate e a participação universitária, especialmente aqueles e aquelas que confiaram nas propostas do coletivo “Conhecer é Transformar”.
Registramos o respeito à decisão da comunidade universitária e desejamos êxito à nova gestão da UFSC no período 2026-2030. É natural que uma nova gestão renove expectativas de uma universidade mais humana, democrática, inclusiva e socialmente comprometida. Considero também importante refletirmos sobre a necessidade de aperfeiçoar os futuros processos eleitorais. Será necessário construí-los à luz da nova legislação, da autonomia universitária, de um debate amplo junto à comunidade acadêmica e com pauta no CUn.
Desta forma, poderemos evitar tanto os conflitos quanto os interesses excessivamente protagonizados neste último processo.
Tecnologia, medo e transformação
Ao mesmo tempo em que a universidade vive mudanças institucionais, o mundo atravessa uma das maiores transformações tecnológicas da história recente da humanidade. Então talvez seja justamente neste ponto que a reflexão sobre a Inteligência Artificial precise ser feita com equilíbrio e maturidade.
A história mostra que a humanidade frequentemente reage com temor diante das grandes mudanças tecnológicas e culturais. Na década de 1960, por exemplo, a guitarra elétrica foi alvo de fortes críticas por parte de setores da música brasileira que acreditavam que ela representaria uma ameaça à autenticidade da MPB. O tempo demonstrou exatamente o contrário: a guitarra integrou-se à música brasileira e tornou-se instrumento de inovação e identidade cultural.
Algo semelhante ocorreu com a chegada dos computadores nas décadas de 1980 e 1990. Também naquele período surgiram previsões alarmistas sobre o fim de profissões, o desaparecimento dos professores e o caos nas relações de trabalho. Mais uma vez, a realidade mostrou-se muito mais complexa. O computador ampliou possibilidades, democratizou acessos, acelerou processos e transformou profundamente a produção e a circulação do conhecimento.
Hoje, diante da Inteligência Artificial, assistimos novamente ao crescimento de discursos marcados pelo medo e pela rejeição automática. Evidentemente, os desafios existem e são enormes. Mas será que o melhor caminho é simplesmente negar ou combater aquilo que ainda estamos começando a compreender?
Talvez o mais importante seja justamente estudar, compreender, regular e utilizar criticamente essas novas ferramentas.
O papel da universidade pública
A Inteligência Artificial amplia capacidades e acelera processos, mas não substitui sensibilidade humana, pensamento crítico, criatividade, ética, responsabilidade social e compromisso com a transformação da realidade. E a universidade pública continua sendo um espaço insubstituível de formação humana, produção científica e construção democrática do conhecimento.
Os desafios são enormes. As universidades precisarão repensar metodologias de ensino, formas de avaliação, critérios de autenticidade acadêmica e processos de aprendizagem. Mais do que transmitir conteúdos, precisarão fortalecer sua capacidade de formar pessoas preparadas para interpretar, criar, argumentar, trabalhar coletivamente e compreender os impactos sociais da ciência e da tecnologia.
A pesquisa científica e a pós-graduação tornam-se ainda mais estratégicas. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica global, países que não produzirem ciência, tecnologia e conhecimento próprios tornar-se-ão cada vez mais dependentes. Defender a universidade pública é também defender soberania nacional, desenvolvimento científico e compromisso social.
Hoje, as universidades vivem um período de insegurança, necessidade de ressignificação institucional e redefinição de seu papel social, processo intensificado pelas rápidas mudanças tecnológicas e também pelos impactos deixados pela pandemia.
Será que este não é exatamente o momento de promover mudanças estruturais e incorporar, de maneira ética, responsável e regulada, a Inteligência Artificial tanto na formação acadêmica quanto na gestão universitária?
Conhecer para transformar
A universidade não existe apenas para responder às demandas imediatas do mercado. Seu papel é muito mais amplo: formar cidadãos conscientes, preservar a memória, desenvolver pensamento crítico e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, antifascista, democrática e humana.
Por isso, “Conhecer é Transformar” permanece vivo. Mais do que um movimento circunstancial, representa um compromisso permanente com o futuro da universidade pública.
Sonhos podem ser adiados, mas não envelhecem quando continuam sustentados pela esperança, pelo diálogo e pela vontade coletiva de construir uma instituição cada vez mais pública, gratuita, inclusiva, democrática e socialmente referenciada.
*João Luiz Martins é professor do Departamento de Matemática (CTE) do campus UFSC Blumenau
Artigo enviado às 9h19 do dua 25 de maio de 2026 e publicad às 11h38 do mesmo dia
