Das 24 espécies de fungos descritas, 18 ocorrem em Santa Catarina e duas são endêmicas do estado
A publicação da primeira Lista Nacional das Espécies da Funga Ameaçadas de Extinção pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) marca um momento crucial para a conservação ambiental no Brasil ao equiparar os fungos aos animais e às plantas no que diz respeito a políticas de proteção. Das 24 espécies de fungos brasileiros reconhecidas formalmente sob alguma categoria de ameaça, 18 ocorrem em Santa Catarina. Além disso, duas delas são endêmicas do estado, ou seja, só têm registro de ocorrência em território catarinense, e foram identificadas por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
As espécies Phylloporia minuta e Trichaptum fissile foram descritas pelo grupo de pesquisa MIND.Funga, do Laboratório de Micologia do Centro de Ciências Biológicas (CCB), a partir de materiais coletados em um parque na região central de Blumenau e em áreas de transição entre restinga e manguezal, em Florianópolis, respectivamente. Uma terceira espécie de destaque, a Wrightoporia porilacerata, também foi descrita originalmente em SC, mas possui registros no Paraná. Diante do isolamento geográfico das duas primeiras, elas despontam como fortes candidatas para integrar uma futura lista estadual de espécies ameaçadas, na avaliação do professor Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, coordenador geral do MIND.Funga e Chair do IUCN SSC Brazil Fungal Specialist Group – entidade ligada à União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), maior rede de organizações ambientais do mundo.
De acordo com o professor, a atuação dos grupos de pesquisa que trabalham com fungos na região Sul do Brasil teve grande importância para a definição da lista de espécies ameaçadas. “Nós contribuímos para esse processo de documentação, validação dos dados, avaliação e indicação das espécies tanto para a lista vermelha global quanto para a nacional. Isso é um dado importante que mostra como os grupos de pesquisa que trabalham com fungos na região sul estão envolvidos com essa parte de conservação”, considera Ricardo Drechsler. Esse protagonismo se reflete, também, na expressiva representação de Santa Catarina na lista vermelha nacional – 75% das espécies relacionadas ocorrem no estado.
Historicamente negligenciados pelas políticas públicas em comparação com a fauna e a flora, os fungos conquistaram equivalência legal em 2024, quando o Decreto 12.137 incluiu o termo “funga” na legislação que define as atribuições dos órgãos ligados ao Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Essenciais para os ecossistemas, os fungos atuam na decomposição de matéria orgânica, ciclagem de nutrientes e atuam como bioindicadores de qualidade ambiental. Atualmente, sofrem com a perda e degradação de hábitats na mesma proporção que animais e plantas.
Com a nova norma, instituída pela Portaria GM/MMA nº 1.696, ficam proibidos o transporte, comercialização e coleta das espécies ameaçadas, exceto para fins científicos ou de conservação autorizados. Além disso, estudos de impacto ambiental e licenciamentos agora precisam considerar formalmente os fungos, além da fauna e da flora.
O professor Ricardo Drechsler observa que essa primeira lista de 24 espécies protegidas é apenas um passo inicial, e há potencial para que centenas de novas espécies entrem na lista nos próximos anos. Para ele, a lista é importante como política pública, mas ações visando a preservação dos fungos já vêm sendo feitas pelos pesquisadores há bastante tempo. Um exemplo pioneiro é a Coleção de Fungos Ameaçados do Brasil (CFAB MIND.Funga), que é a primeira coleção de culturas que se dedica exclusivamente à conservação da diversidade genética ex situ (fora do local de origem) de espécies de funga ameaçadas de extinção. Atualmente, a CFAB ocupa uma sala no CCB da UFSC e contém material genético relativo a dez espécies de fungos.
Lista de fungos ameaçados de extinção no Brasil (que ocorrem em Santa Catarina)
- Phylloporia minuta (endêmica)
- Trichaptum fissile (endêmica)
- Wrightoporia porilacerata
- Acanthocorticium brueggemannii
- Amanita viscidolutea
- Heteroradulum brasiliense
- Austroboletus festivus
- Antrodia neotropica
- Amauroderma renidens
- Gloeocantharellus aculeatus
- Coltricia permollis
- Skeletocutis roseola
- Laetiporus squalidus
- Morganella austromontana
- Phallus glutinolens
- Trametopsis brasiliensis
- Blumenavia crucis-hellenicae
- Phallus aureolatus
Fonte: Notícias da UFSC
