Linha de Tendência

*Por Nelson Casarotto Filho

Nós temos um grande problema. A população em geral não sabe o que é uma linha de tendência. E mesmo quem tem formação não se lembra disso. O que é vendido é que “a situação está ruim”. Ora, a situação está ruim desde Cabral. Não percebe uma pequena melhoria de ano a ano. Não percebe que um crescimento da economia de 3% aa e da renda per capita de 2% a.a. é algo fabuloso em relação aos demais países, e que a melhoria do índice de Gini da distribuição de renda, o índice de qualidade de vida IDH, a diminuição da pobreza e a saída do mapa da fome, são enormes conquistas. Ah, “mas o SUS” deixa a desejar, mas não percebe progresso do SUS em relação ao que tínhamos 30 anos atrás. Nao percebe que, em 20 anos, passamos 2,5 para 8 milhões de matrículas de terceiro grau. A independência do petróleo, são 40 anos. Que há 24 anos tínhamos reservas cambiais negativas (fomos ao FMI) e hoje quase 400bi de dólares. Tudo anda devagar e sempre. Mas anda.

O problema são os passos para trás. As quebras da linha de tendência. Existem sazonalidades, periodicidades, acontecimentos fortuítos (como a crise subprime de 2008 ou a covid 19, ou o ocaso de nossa engenharia pela lava jato), mas a linha de tendência está firme.

Volta e meia aceleramos numa variável, como na criação de centenas de novos campi de universidades e institutos federais em dois mandatos. Mas a linha de tendência está lá. Não há milagre. Mas o eleitor quer milagre. Um super herói que vai resolver os problemas do país de uma hora para outra. Quer um Janio e sua vassoura contra os corruptos, quer um Collor caçador de marajás, que vai abrir a economia e vamos importar carros e não nossas carroças (na realidade importamos Lada). Quer Bolsonaro que ia acabar com os bandidos, impostos e a burocracia. Tudo tiro n’água. Não há milagre. Existe uma linha de tendência. Agora querem mudanças com Flavio, mudanças de constituição, novo alinhamento tipo fora china e viva os EUA. Que promete que o SUS virará um hospital Einstein, um ministério da prosperidade. Tiro n’água novamente. Olhem para os vizinhos argentinos. O salvador está virando coveiro. O que precisamos é de alguém que se comprometa a manter a linha de tendência, ou seja, ajustes, melhoria continua, que aprendemos na qualidade total. Ajustes no SUS, melhorias na educação, na oferta de moradias, na qualidade de vida em geral…

Mas não, queremos um salvador. Não compreendemos linha de tendência. E que o futuro é uma soma de continuidade do passado + ações no presente + acontecimentos fortuítos. Não olhamos para o passado, logo não aprendemos. E não compreendemos linha de tendência. Infelizmente!

*Nelson Casarotto Filho é professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina

Artigo recebido às 21h58 do dia 15 de outubro de 2026 e publicado às 8h23 do dia 16 de outubro de 2026