Sob protesto, Unirio elege reitor que não passou por consulta pública

Atual vice-reitor foi eleito pelo colégio eleitoral sem sequer se inscrever como candidato na consultad+ manifestantes denunciam golpe

O colégio eleitoral da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) elegeu ontem, 11, o atual vice-reitor, Ricardo Silva Cardoso, para o cargo máximo da instituição até 2023, sem respeitar a consulta pública à comunidade universitária. Cardoso sequer estava inscrito no pleito, realizado mês passado, que tradicionalmente decide os nomes na lista tríplice enviada ao governo federal. É a primeira vez desde a redemocratização que um candidato é escolhido sem passar pelo consulta pública.

A sessão do colégio eleitoral foi marcada por protestos de estudantes e professores, que denunciaram golpe. O primeiro colocado da consulta, o professor Leonardo Villela de Castro, acabou em segundo no colégio eleitoral, com 52 votos. Cardoso teve 65. Em terceiro lugar ficou a professora Cláudia Aiub, segunda colocada na consulta, com 20 votos, e em último o professor de medicina e militar Helton Setta, que também não estava inscrito no pleito.

Castro, ao declarar seu voto, pediu que a democracia fosse respeitada. “Vou votar em mim mesmo, porque ganhei a consulta. E só por isso. Não só está se criando um problema sério por uma divisão política desnecessária, como estamos correndo um risco. Peço a Ricardo Silva Cardoso e Helton Setta que não tenham medo da democracia. Não é nenhum ministro que tem que dizer o que temos que fazer.”

Os representantes do Diretório Central dos Estudantes (DCE) disseram que “não darão paz ao interventor”, referindo-se a Cardoso.

Segundo a legislação, o presidente Jair Bolsonaro pode escolher qualquer um dos nomes na lista. A justificativa de Cardoso para a manobra é em parte jurídica e em parte, burocrática. O professor de biologia disse que não participou da consulta porque não houve tempo hábil para escolher outro candidato para vice-reitor na sua chapa. O nome anterior era uma professora filiada ao PT. Na sua avaliação, isso traria problemas com o governo federal. Já o reitor atual, Luiz Pedro San Gil Jutuca, que votou em Cardoso sob gritos de “golpista”, disse que tudo foi feito dentro da legislação, “que já não favorece a democracia”.

Jutuca se refere à uma nota técnica emitida pelo MEC em 2017 que estabelece que o voto dos professores na consuta pública para reitor tenha obrigatoriamente 70% do peso. A Unirio, assim como a UFSC, realiza a eleição com voto paritário, onde cada categoria (alunos, servidores e professores) tem o mesmo peso. Para Jutuca, isso invalida a voz da comunidade universitária.

O professor Rodrigo Castelo, da Associação dos Docentes da Unirio (Adunirio), disse que “tudo indica que nosso próximo reitor vai ser um interventor biônico. No passado, muitos foram torturados e mortos para o restabelecimento da democracia no país. Desde então, pela primeira vez teremos um reitor que não passou pela consulta eleitoral”.

Leia mais: O Globo


V.L./L.L.

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