Um mês de ensino remoto no Colégio de Aplicação: professores e alunos reclamam de sobrecarga

Em meio à implementação das aulas à distância, colégio sofre com falta de docentes 

As aulas remotas no Colégio de Aplicação completaram um mês nesta quinta-feira (6). Nessas quatro semanas, alunos e professores tiveram de se adaptar às plataformas digitais, estabelecer uma nova rotina e uma nova forma de relacionamento. Conversamos com docentes, técnicos, estudantes e seus familiares para entender o que deu certo e o que não funcionou tão bem no primeiro mês de aulas remotas no colégio.

Os relatos são, em geral, positivos, considerando que esse foi um período de adaptação e aprendizagem para quem está nos dois lados da tela do computador. Os pais reconhecem o esforço dos funcionários do Colégio, os professores se capacitaram (e continuam estudando) para dominar as ferramentas, e os alunos já se sentem mais familiarizados com o modelo remoto. Em comum, a maioria reclama da sobrecarga — de atividades, no caso dos estudantes, e de trabalho, entre os docentes e técnicos, que veem a jornada se estender por todo o dia.

A plataforma adotada pelo Colégio de Aplicação para as aulas remotas é o Moodle, mesma ferramenta que será usada nos cursos de graduação e pós-graduação da UFSC, quando as aulas se iniciarem no dia 31 de agosto.  A maioria dos estudantes tem conseguido acompanhar as atividades remotamente, mas há uma parcela que não dispõe de equipamento ou internet.

Nos anos iniciais, por exemplo, das 360 crianças, 55 não participaram das aulas no primeiro mês — o que representa 15% do total. Nesse período, as famílias podiam buscar o material impresso na escola. No anos finais (6º ao 9º), dos 325 alunos, 4 não conseguiram acompanhar, mas 35 relatam dificuldades com equipamentos: estão assistindo as aulas pelo celular, por exemplo, o que não é adequado. Já no Ensino Médio, o total de faltantes gira em torno de 10% – em alguns casos, por motivos que já existiam no modelo presencial. “O número de ausentes é semelhante ao que tínhamos em sala de aula. Alguns faltam porque não têm acesso, outros por motivos sociais ou familiares. Estamos mapeando isso”, diz Camilo Buss Araújo, coordenador do Ensino Médio.

Nesta semana, a direção do colégio publicou um edital para encaminhar o empréstimo de equipamentos aos estudantes que não dispõem de estrutura para acompanhar o ensino remoto. O cadastramento vai até o dia 10 de agosto. Até o momento, dos 963 alunos, 109 já formalizaram o pedido para receber computadores. O próximo edital será de acesso à internet. Por enquanto, 41 estudantes solicitaram assistência do colégio para ter uma conexão que permita participar das aulas.  

Problemas técnicos, no entanto, afetam também quem tem equipamento e internet para acompanhar as atividades. “Acontece de chegar no horário da aula e os professores não conseguirem acessar o Moodle. Não é todo dia, mas tivemos alguns registros ao longo desse mês. Temos dúvidas se o sistema vai comportar tantos acessos, quando toda a universidade retomar as aulas”, diz Corina Martins Espíndola, coordenadora dos anos finais. Quando o Moodle apresenta problema, professores e alunos acessam uma plataforma alternativa.  

No Ensino Médio, ela também tem sido utilizada para resolver um outro problema: as turmas são mais numerosas e o sistema não comporta mais de 75 participantes simultâneos. Quem tenta acesso depois desse limite não consegue entrar na aula. Quando isso acontece, o professor precisar acionar a outra plataforma e criar uma segunda sala. “Teve uma aula de geografia que chegou no limite e até conseguir dar um jeito de reproduzir foram vinte minutos perdidos”, conta Martin Da Cruz, de 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio.  

Laura Ribeiro, sua colega de turma, diz que a falta de experiência de professores e alunos com essa nova modalidade é o que torna tudo mais difícil. “No segundo ano, são mais de 90 alunos assistindo a uma aula, já que as turmas foram unificadas. A plataforma trava, e tem que ficar checando se todo mundo está escutando o professor, que às vezes tem que abrir uma sala reserva durante a aula para incluir todo mundo. É bem complicado.”  Lucas Serafim, de 16 anos, diz que os problemas apareceram com mais frequência nos primeiros dias. “Mas ao longo do tempo as coisas foram se encaixando e hoje posso dizer que estamos mais familiarizados com as atividades pedagógicas não presenciais.” 

Guilherme, do segundo ano do Ensino Médio, acompanha as explicações do professor de Biologia. Foto: Arquivo pessoal
Guilherme, do segundo ano do Ensino Médio, acompanha as explicações do professor de Biologia
Foto: Arquivo pessoal

Três realidades diferentes

Tendo que viabilizar as aulas remotas ao mesmo tempo para os três níveis de ensino (anos iniciais e finais do fundamental e ensino médio), o Colégio de Aplicação não tem apenas uma experiência com ensino remoto, mas ao menos três realidades distintas. Cada nível tem suas particularidades e necessidades.

Enquanto no Ensino Médio os professores precisam dar a mesma aula simultaneamente em duas plataformas (Moodle e RNP) para contemplar todos os estudantes, nos anos iniciais os professores dividiram as turmas para lecionar em grupos menores. “Temos crianças em alfabetização, que precisam da mediação dos familiares para acompanhar as aulas. Percebemos que dividir em grupos de quatro ou cinco crianças favoreceria todo o processo”, diz a professora Adriana da Costa, coordenadora dos anos iniciais.  

Essa situação, no entanto, fez com que alguns professores tivessem que dar a mesma aula para até três grupos diferentes. “Não sei dizer em quanto aumentou a carga de trabalho, mas posso garantir que, no mínimo, dobrou em relação ao modelo presencial”, diz Adriana. Planejar as aulas em uma plataforma nova, tendo que aprender enquanto se é preciso ensinar também exige mais tempo. “Em todas as áreas, em todos os níveis, temos profissionais e alunos com dificuldade em relação ao uso da plataforma e ao fluxo de trabalho”, afirma Andressa Farias, assistente de alunos do ensino médio. 

Ao mesmo tempo em que precisaram se capacitar para a novo modelo e adaptar o conteúdo, os professores tiveram também que adaptar a estrutura de casa para poder trabalhar. “Eu mesma e muitos outros professores compramos computadores novos porque os nossos não eram adequados”, diz Adriana. “Também tivemos de aumentar a banda larga de internet.” Esses custos são arcados pelos próprios professores, sem contrapartida da UFSC. 

Se de um lado os professores têm notado uma sobrecarga de trabalho, do outro, os alunos também se dizem sobrecarregados, principalmente no Ensino Médio. Segundo o coordenador Camilo Buss Araújo, para esses anos, a decisão foi transpor as 4,6 horas de aulas diárias do modelo presencial para o modelo remoto, com 50% de atividades síncronas e 50%, assíncronas. São 2 horas e 20 minutos de aulas ao vivo pela manhã e a mesma carga horária à tarde, mas com atividades que os alunos desenvolvem sem a presença do professor.

A reclamação dos estudantes é de que essa carga horária da tarde acaba sendo superior a 2 horas e 20 no período da tarde. “Por mais que a gente só tenha aula de manhã, passamos a tarde toda fazendo as atividades assíncronas e está sendo bem cansativo”, diz Laura, do segundo ano. “Tem muita coisa para o mesmo dia e são coisas que não são tão fáceis. Alguns colegas não aguentaram e pararam de acompanhar as aulas.” 

Falta de docentes

Conversamos também com alguns pais de alunos do Colégio de Aplicação e eles reconhecem o esforço de professores, técnicos e da direção para viabilizar as aulas remotas, ainda que esse modelo tenha muitas limitações em relação ao presencial. “Os dois primeiros meses sem aula foram muito angustiantes, mas depois disso as coisas começaram a engrenar. Houve um consenso e um esforço muito grande por parte dos colégio de ir atrás das soluções”, diz Helena Cristina Vieira, de 49 anos, mãe de uma aluna do Ensino Médio. 

Eles relatam, no entanto, outra preocupação, com um problema que é anterior à pandemia e nem está relacionado ao ensino remoto: a falta de professores. Com a portaria do Ministério da Educação que suspendeu a contratação de funcionários nas instituições federais de ensino, o ano letivo já começou com 10 docentes a menos no CA.  

Em julho, a Associação de Pais de Professores do Colégio de Aplicação enviou uma carta ao reitor Ubaldo Cesar Balthazar, pedindo uma posição da Administração Central a respeito da falta de docentes. Hoje faltam professores nas disciplinas Educação Física, Educação Especial, Música e Educação Geral, nas fases iniciais; e História, Língua Portuguesa, Música e Educação Especial nos anos finais e/ou no Ensino Médio. 

O diretor do CA, Edson Azevedo, diz que tem cobrado a UFSC sobre a reposição dos professores. Segundo ele, entre as disciplinas que não estão com ausência de professores “estamos aguardando a retomada das possíveis contratações.”

Imprensa Apufsc

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