Ensino remoto acentua sobrecarga de professoras com filhos em idade escolar

Pesquisas e relatos mostram que a produtividade acadêmica de mulheres com filhos foi a mais afetada durante a pandemia de coronavírus

Professora Fernanda Staniscuaski em seu local de trabalho no laboratório do Centro de Biotecnologia da UFRGS, com os filhos Samuel e Bruno | Foto: Flávio Dutra / Jornal da UFRGS

A rotina de trabalho dos professores e professoras universitários, que já envolvia uma maratona de atividades no ensino presencial, ganhou novas atribuições com a implementação do ensino remoto. Agora, além de ministrar suas próprias disciplinas a distância, os professores que são pais e mães também são responsáveis por outra sala de aula que se mistura ao espaço doméstico: a da escola dos filhos. Mas será que a divisão destas novas tarefas é feita de forma igualitária entre homens e mulheres?

Um levantamento realizado pelo Movimento Parent in Science entre abril e maio de 2020 com mais de 15 mil professores e professoras, alunos e alunas de pós-graduação e pós-doutorandos de diferentes regiões do Brasil, confirmou o que algumas mães pesquisadoras já vinham relatando: a pandemia de covid-19 aumentou a desigualdade entre homens e mulheres na vida acadêmica.

Os resultados desta pesquisa evidenciam que, especialmente para submissões de artigos científicos, mulheres negras (com ou sem filhos) e mulheres brancas com filhos (principalmente com idade até 12 anos) foram os grupos cuja produtividade acadêmica foi mais afetada pela pandemia. Por outro lado, a produtividade acadêmica dos homens, especialmente os sem filhos, foi a menos afetada.

Criado há quatro anos pela professora Fernanda Stanisçuaski, pesquisadora do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o movimento Parent in Science é coordenado por 15 mães e um pai, todos docentes de universidades brasileiras empenhados em discutir a maternidade e a paternidade na ciência brasileira. Uma das iniciativas do Parent in Science é o projeto Maternidade no Lattes, que reivindica junto ao CNPq a inclusão do período da licença maternidade no currículo Lattes.

Mãe de três filhos — “o meu mais velho tem 7 anos e o mais novo 1 ano e 10 meses” — a professora Fernanda explica que as dificuldades de conciliar o trabalho com os cuidados com as crianças aumentaram durante o isolamento social. Por isso, o Parent in Science decidiu fazer uma pesquisa que mostrasse de que forma a pandemia está impactando a ciência brasileira,  levando em conta gênero, raça e parentalidade dos participantes.

“Cruzando todas essas interfaces chegamos a um perfil muito claro: no extremo de maior produtividade vamos encontrar homens brancos sem filhos e no outro extremo da menor produtividade a gente vai encontrar a mulher negra com filho. Esse perfil é claro em todas as análises, em todos os grupos que a gente avaliou (docentes, discentes e pós-doutorandos)”. A produtividade acadêmica foi medida com base em dois critérios: submissão de artigos e cumprimento de prazos. Segundo Fernanda, algumas agências de fomento prorrogaram prazos durante a pandemia — foi graças a isso que 50% das professoras mães que participaram da pesquisa conseguiram cumpri-los. Entre os homens sem filhos, apenas 20% afirmaram que precisaram de adiamento.  

A sobrecarga na UFSC

A professora da UFSC Luciana Rech, do Departamento de Informática e Estatística (INE), confirma que o desafio de conciliar carreira com maternidade aumentou na pandemia. Docente da universidade há cerca de 11 anos, há sete anos ela se tornou mãe dos gêmeos Humberto e Heitor —  ambos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desde o início da quarentena muita coisa mudou na rotina da casa, que já era fora dos padrões. Com o isolamento social, além das aulas curriculares dos filhos também os atendimentos multidisciplinares com pedagoga, psicólogo comportamental e outros especialistas, antes presenciais, passaram a ser online.

Professsora Luciana com os filhos gêmeos Heitor e Betão
Os gêmeos Heitor, de blusa preta, e Humberto. Arquivo da família

Para dar conta de conciliar a extensa agenda dos filhos com sua rotina de professora da UFSC, Luciana teve que manter a terapeuta ocupacional atendendo presencialmente os gêmeos. “Sem a Mari simplesmente não teria como”, diz. É Mari quem fica com os meninos enquanto a professora Luciana dá aulas de forma remota para os cerca de 40 alunos matriculados nas duas disciplinas que ela está ministrando neste semestre, ou quando está atendendo os seus orientandos na pós-graduação. Também é a terapeuta quem assessora os meninos na educação a distância e nas consultas online com os especialistas.   

À noite, após colocar os filhos para dormir, é que Luciana elabora os conteúdos das aulas, escreve artigos e outras produções acadêmicas. “Conciliar meus compromissos da UFSC com a rotina das crianças foi o maior desafio, pois além do ensino, nós professores temos outras demandas, como coordenação de projetos de pesquisa, orientações, revisões de artigos, participações em bancas, projetos de extensão. Mas meus filhos são a prioridade”. Segundo o movimento Parent in Science, esse momento de pandemia tem sido particularmente complexo para os pais que têm filhos com algum tipo de deficiência, especialmente pela restrição do acesso a terapias e tratamentos e pela redução das redes de apoio que antes contavam com avós e avôs. 

Na família da professora Patrícia Della Méa Plentz, do Departamento de Informática e Estatística da UFSC, os dias em que a conexão com a internet está ruim são aqueles em que há maior estresse, pois ela tem de pedir que os filhos fiquem desconectados para poder dar aulas. Ela é mãe de Beatriz, 10, e Gabriel, 7, que antes da pandemia passavam o dia todo na escola. O marido de Patrícia também é professor na UFSC e ocupa cargo administrativo, por isso está constantemente em reuniões e atendendo a diversos setores de forma online. “Para ele não posso dizer ‘pára de conectar, cancela sua reunião que agora estou em aula’, por isso é complicado, gera mau humor nas crianças em casa quando a rede está sobrecarregada”.

Enquanto os filhos estão em aula, é Patrícia que fica em volta para assessorá-los quando cai a conexão ou para encontrar algum material solicitado pela professora. Quando ministra a disciplina noturna, a tarefa de pôr os filhos na cama fica por conta do marido, como seria em um semestre de aulas presenciais. A diferença é que a universidade está dentro de casa.  “Antes eu estava no espaço da universidade, tinha o momento de revisar a aula, me concentrar. Agora estou em casa, escutando tudo, ou seja, tem vezes que sei que já era a hora deles estarem na cama e não estão. E tudo isso enquanto a aula está ali acontecendo, então a gente como mãe acaba dividindo nossa atenção com essas questões”. 

“Todos esses problemas, que já existiam, agora ficam escancarados com o ensino remoto  

Para dar voz a relatos como esses, as professoras Ana Carolina Coelho, integrante do GT Mulheres Cientistas e Maternidades Plurais e professora da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás, Camilla Cidade, do Núcleo Interseccional em Estudos da Maternidade (Niem/UFG), e Vanessa Clemente, do coletivo Mamães na Pós-Graduação, irão lançar dia 15 de outubro o livro: “Os diferentes oceanos das mães cientistas na pandemia: retratos e relatos plurais de aventuras cotidianas”, que reúne mais de 140 depoimentos de mães cientistas do Brasil e do exterior.

Esse trabalho trará à tona as dificuldades que a maioria das mães acadêmicas têm passado: esgotamento físico e mental, redução na produtividade, sobrecarga de trabalho, aumento de problemas psicossomáticos como gastrite e dores de cabeça, e a mistura de sentimentos gerados no esforço de mesclar espaços e rotinas individuais sob o mesmo teto.

Na avaliação de Ana Carolina, a estrutura institucional das universidades foi pensada para os homens, sem levar em consideração nem se preocupar com o acolhimento de famílias. “O que a sociedade cria para nós é um falso dilema (maternidade versus academia), que é uma verdadeira armadilha. Escolher a maternidade não deveria ser tão cruel, mas estamos em um ambiente que nos cobra como se não tivéssemos uma criança. É uma postura competitiva, de produtivismo. Eu amo ser mãe, mas não sou só mãe. Não sou só uma professora. Sou tudo isso, um ser humano completo, mas o mundo acadêmico insiste em me reduzir a uma só função”, diz. 

Na opinião da professora, fraldários em banheiros masculinos e femininos e creches noturnas na universidade –  para que os filhos fiquem em um local de confiança quando as mães professoras são escaladas para disciplinas noturnas – são exemplos do que deveria se tornar políticas públicas para acolhimento da  “maternagem” no espaço acadêmico. 

“Todos esses problemas, que já existiam, agora ficam escancarados com o ensino remoto. Quando o ensino vem pra dentro de casa, nós, automaticamente, ganhamos essa nova atribuição. E as mães estão descobrindo que elas não são pedagogas, que educar crianças, de maneira lúdica, é muito diferente do que ensinar em uma universidade.”

Ana Carolina também é mãe de duas crianças, de 2 e 9 anos, e conta que ao mesmo tempo em que cuida da mais nova, que teve as atividades educativas paralisadas desde o início da pandemia, assessora a mais velha nas aulas online, enquanto responde demandas do trabalho e se divide entre todas as outras tarefas domésticas.

“O nível de prontidão das mães para resolver problemas do dia a dia aumentou muito. Antes tínhamos a falsa sensação de que você conseguia conciliar tudo, e agora com tudo misturado dentro de casa, começa a aparecer o que sempre existiu: mães vivendo em função de organizar seus horários para os filhos caberem nas atividades”, comenta. 

Para Ana Carolina, o mais importante é possibilitar que outras mulheres percebam que não estão sozinhas e que a saída precisa ser coletiva. “Não estamos dizendo que não vamos produzir, pelo contrário. O que estamos pedindo é alguma compreensão das instituições, relembrando que temos uma outra ‘produção’ em casa, principalmente nos primeiros anos da maternagem quando as crianças demandam mais cuidado, e que esse trabalho é importante para a coletividade pois estamos criando pessoas que vão fazer parte da sociedade”.

Karina Ferreira

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