Estudo do SoU_Ciência integra dados de 2014 a 2023 e revela crescimento de 44,6% na pós-graduação com retração de 4% nos recursos
Um levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lançado em abril de 2026 pelo Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), mostra que a expansão da formação científica no Brasil entre 2014 e 2023 se deu principalmente nas universidades públicas, em um período marcado por cortes e instabilidade no financiamento. O Catálogo de Dados sobre financiamento da ciência e das universidades federais reuniu e cruzou informações orçamentárias, acadêmicas e demográficas, permitindo analisar, de forma articulada, como o sistema evoluiu ao longo da última década e sob quais condições.
O levantamento articula dados do orçamento federal — com ênfase nas despesas discricionárias —, informações da pós-graduação stricto sensu (matrículas, programas e perfil discente) e indicadores institucionais.
Os dados apontaram um descompasso entre expansão e financiamento: entre 2014 e 2023, os recursos destinados às universidades federais recuaram 4% – em algumas universidades, essa redução foi muito maior, chegando a 24%, como na Universidade de Brasília – enquanto as matrículas na pós-graduação stricto sensu cresceram 44,6% na década analisada.
O estudo também revela que o período de maior queda no fluxo de recursos foi entre 2017 e 2021, com cortes de quase 42%, com relação a 2014. De 2022 a 2024, observa-se um movimento gradual de recuperação, de R$6,46 bilhões, para R$ 9,3 bi – porém, 2024 ainda se encerrou com quase um montante de despesas liquidadas quase 15% abaixo do que em 2014.
Para a pesquisadora Suelaynne Lima da Paz, responsável pela coordenação do catálogo, o cruzamento dessas variáveis explicita uma contradição estrutural. “Essa evidência é alarmante e demonstra que a universidade brasileira conseguiu acolher um contingente significativamente maior de pesquisadores sob um cenário de asfixia financeira. É a prova estatística de um sistema que se expandiu em produtividade enquanto era privado das condições mínimas de sustentabilidade.”
O estudo indica que a ampliação da pós-graduação foi contínua no período, acompanhando a interiorização das universidades federais e a diversificação do perfil discente. Esse movimento ampliou o acesso à formação científica, mas não foi acompanhado por expansão proporcional das condições de permanência, como bolsas e infraestrutura.
A análise orçamentária detalha como a redução de recursos afeta diretamente o funcionamento das universidades federais.
“Os cortes mais contundentes incidem sobre os recursos discricionários — especificamente nas ações 20RK e 20GK”, aponta Suelaynne Lima da Paz. “Estes são os recursos vitais para a manutenção básica das instituições; sem eles, o cotidiano operacional e a continuidade dos programas de ensino, pesquisa e extensão são severamente comprometidos.”
No orçamento federal, essas ações correspondem a rubricas de custeio: a ação 20RK está associada ao funcionamento e manutenção das universidades federais, enquanto a 20GK se refere ao apoio ao desenvolvimento de suas atividades acadêmicas. A redução desses recursos afeta diretamente a operação institucional, incluindo manutenção de laboratórios, contratos de serviços e suporte às atividades de ensino e pesquisa.
Instabilidade ao longo da série histórica
Além da retração, o catálogo identifica ausência de estabilidade no financiamento ao longo da década. A série histórica mostra oscilações frequentes, com recomposições parciais seguidas de novos cortes.
“O que mais sobressai na análise técnica é, sem dúvida, a crônica ausência de uma trajetória estável de financiamento”, comenta Lima da Paz.
Essa variação compromete o planejamento institucional e a continuidade de projetos, que dependem de previsibilidade.
“Hoje, a instabilidade pesa tanto quanto o volume absoluto de recursos”, afirma a professora Maria Angélica Minhoto, da Unifesp, coordenadora da pesquisa. “Ciência e formação de pesquisadores dependem de continuidade.”
O catálogo traz como novidade a articulação de dimensões como financiamento, expansão da pós-graduação e permanência estudantil, e aponta que a existência de múltiplas bases de dados não tem se traduzido, historicamente, em capacidade analítica integrada.
“O ponto de inflexão ocorreu quando começamos a cruzar dimensões que costumam ser tratadas separadamente”, conta Minhoto. “Observamos um padrão muito claro: o sistema brasileiro expandiu fortemente sua capacidade formativa e científica, mas sem construir mecanismos equivalentes de sustentação dessa expansão.”
A integração das bases permitiu relacionar oscilações orçamentárias com indicadores como evasão e desigualdades regionais
“A evasão não é um problema individual do estudante, mas um indicador sistêmico de fragilidade da política científica”, ressalta Minhoto.
Essa fragmentação dificulta o acompanhamento de trajetórias completas — do ingresso à conclusão — e limita a identificação de pontos críticos relacionados à permanência e à distribuição territorial do sistema.
“O Brasil produz muitos dados. O problema é que eles foram historicamente organizados em ‘caixas institucionais”, pondera a professora da Unifesp.
Os dados consolidados reforçam o papel das universidades federais como eixo da formação científica no país. O crescimento de 44,6% nas matrículas da pós-graduação no período analisado ocorreu majoritariamente nessas instituições, que concentram a formação de mestres e doutores.
Ao mesmo tempo, o catálogo aponta que essa expansão se dá sob condições institucionais pressionadas, com impactos sobre a continuidade das trajetórias formativas.
Torna-se ainda mais relevante compreender a dimensão dessa análise quando se considera que 90% da produção científica do Brasil está concentrada nas instituições públicas, federais e estaduais.
“Formar pesquisadores é um processo lento, cumulativo e caro. Quando o país perde pessoas no meio do percurso, perde também investimento público, capacidade científica futura e potencial de inovação”, observa Minhoto.
Monitoramento e uso dos dados
O Catálogo de Dados consolida informações de diferentes fontes em uma base comparável, permitindo análises longitudinais sobre financiamento, expansão da pós-graduação e condições institucionais das universidades federais entre 2014 e 2023.
Segundo a equipe do SoU_Ciência, a próxima etapa do trabalho prevê a atualização periódica das bases, o aprofundamento do cruzamento de variáveis e o desenvolvimento de indicadores para análises comparativas e projeções.
“Queremos que ele colabore no debate público para a formulação de políticas públicas verdadeiramente orientadas por evidências”, conclui Lima da Paz.
Fonte: Jornal da Ciência
