Dados da expedição deverão alimentar pesquisas de pós-graduação e publicações científicas
Pesquisadores de diferentes instituições do país embarcam nesta segunda-feira, dia 26, e ficam até sexta-feira, dia 30, em uma expedição científica para coletar algas em Santa Catarina, com o objetivo de comparar a diversidade atual com registros históricos e investigar efeitos do aquecimento e da urbanização. Coordenada pelo professor Paulo Horta, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a expedição é parte do projeto Algas & Clima, do Programa Fapesp para o Atlântico Sul e Antártica (Proasa), e contará com o Veleiro Expedições Científicas Oceanográficas (ECO), da UFSC, para levar os pesquisadores aos pontos de mergulho e coleta na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo.
Descrita como um “santuário”, a reserva protege a biodiversidade marinha da região subtropical. “O trabalho de campo é custoso, e nem sempre temos a oportunidade de realizá-lo. Nesta expedição, poderemos revisitar bancos de algas com registros de 40 ou 50 anos atrás e comparar como estão hoje, se houve mudanças na diversidade e na quantidade de algas. Ainda conhecemos muito pouco do fundo do mar e esperamos encontrar espécies novas para a flora brasileira”, afirma a professora Mutue Toyota Fujii, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), de São Paulo.
Segundo Horta, as coletas estão previstas nas ilhas do Arvoredo, Deserta e das Galés. “A identificação das espécies, incluindo possíveis espécies novas para a ciência e outras ameaçadas, deverá permitir o mapeamento de áreas mais vulneráveis e de refúgios para a biodiversidade. Esse diagnóstico poderá orientar a gestão costeira e apoiar medidas de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação de seus efeitos”, explica o pesquisador.
A comparação entre as algas coletadas na expedição e os registros antigos ajudará a testar a hipótese de tropicalização da flora marinha. Os pesquisadores querem avaliar se o aquecimento está favorecendo espécies associadas a águas mais quentes e modificando a composição das comunidades locais.
Essa análise também precisa considerar as variações ao longo do ano. Mudanças na temperatura e na duração dos dias influenciam a presença das algas e suas fases de desenvolvimento. Assim, deixar de encontrar uma espécie em determinada coleta não significa, necessariamente, que ela desapareceu daquele ambiente.
Por isso, a época da expedição é importante para o levantamento. Segundo Horta, a intenção é observar o que ele chama de “sinal de inverno”: espécies ou formas de crescimento favorecidas pelos dias mais curtos e pelas temperaturas mais baixas, que podem deixar de ser encontradas com a aproximação do verão.
Coletas em diferentes partes das rochas
Além de Mutue e Horta, participam da expedição o pós-doutorando Nuno Tavares Martins, do IPA; o mestrando Ronan Armando Caetano e o doutorando Alejandro Rodolfo Donnangelo Varela, ambos da UFSC; e a pesquisadora Eliana Nakano, do Instituto Butantan. A equipe contará com o apoio de mergulhadores experientes, que dividirão as tarefas de coleta e documentação dos ambientes submersos. Enquanto alguns procurarão algas no topo das rochas, outros buscarão exemplares nas laterais e nas partes inferiores.
Horta explica que a equipe costuma iniciar a observação em áreas mais profundas e seguir em direção às mais rasas. Para a expedição, estão previstos mergulhos em profundidades de até 30 metros, condicionados à avaliação de segurança e às condições oceanográficas.
A coleta será feita em pequenas quantidades, com o cuidado de obter exemplares que possam ser identificados. Mutue explica que um fragmento nem sempre reúne as características necessárias para reconhecer uma espécie. Por isso, os pesquisadores procuram indivíduos com o talo íntegro, a estrutura de fixação, chamada apressório, e, quando possível, estruturas reprodutivas. “Como as algas normalmente crescem formando populações, coletamos apenas uma pequena quantidade de cada espécie, sem comprometer o conjunto”, esclarece a professora.
O destino de cada amostra
Parte importante da pesquisa também acontecerá nos laboratórios de instituições parceiras, onde a professora Mutue e a pesquisadora Eliana Nakano darão continuidade ao trabalho de triagem e o preparo das algas, com apoio de equipamentos como lupa e microscópio. Isso permitirá observar as amostras com mais precisão, sem o balanço da embarcação.
Essa etapa envolve reconhecer os organismos, separar exemplares e decidir como conservar o material conforme a análise prevista. Uma parcela poderá ser seca e preservada para estudos da diversidade. Outra será acondicionada em sílica para análises de DNA. Amostras destinadas a estudos químicos poderão seguir congeladas.
As decisões tomadas nessa fase também poderão orientar as coletas dos dias seguintes. Ao encontrar uma alga de interesse para determinada pesquisa, Mutue e Eliana poderão indicar à equipe a necessidade de procurar outros exemplares. “Nós vamos ter que separar e destinar todo o material, fazendo o maior aproveitamento possível da expedição”, explica a docente do IPA.
Entre os destinos possíveis estão pesquisas de prospecção de substâncias com atividade antiparasitária, como as desenvolvidas pelas professoras Márcia Graminha, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, e Eliana Nakano, do Instituto Butantan, integrantes do projeto. Segundo Mutue, o histórico de uma família de algas pode orientar a seleção de espécies para análise. “Quando já há registros de substâncias com determinada atividade biológica nesse grupo, os pesquisadores podem buscar compostos de interesse em espécies próximas”, explica a docente do IPA.
Informação para quem vive do mar
Os dados da expedição deverão alimentar pesquisas de pós-graduação e publicações científicas. A equipe também pretende compartilhar observações sobre as condições dos ambientes com pescadores, maricultores e comunidades escolares.
Horta explica que o grupo utiliza o aplicativo de ciência cidadã Cientistas do Mar para registrar informações de campo e acompanhar a qualidade ambiental. A proposta é que parte das observações feitas durante a expedição possa contribuir para um diagnóstico inicial das áreas visitadas e para as atividades de extensão desenvolvidas na região.
Esse diálogo tem relação direta com o cotidiano de quem depende do oceano para trabalhar. Alterações ambientais podem afetar a biodiversidade e as atividades de pesca e cultivo. Segundo o professor, o aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor e de outros eventos extremos acrescenta pressões a ambientes que já sofrem com a poluição. Para o professor da UFSC, a expedição também é uma oportunidade de aproximar a população de um ambiente que permanece pouco conhecido, inclusive por quem vive em um país com extensa costa. “A vida surge no mar e por uma questão cultural, o brasileiro se afastou dele. Mas vivemos talvez um momento mais grave da história da humanidade e é uma necessidade, especialmente para o brasileiro se reaproximar do mar, conhecer aquilo que ele guarda que pode não só melhorar a nossa qualidade de vida hoje, mas a das futuras gerações. A cultura oceânica é uma necessidade que precisa ser entendida como urgente”, destaca.
Fonte: Notícias da UFSC
