Conferência Antifascista debate papel da educação na democracia e encerra com publicação da Carta de Porto Alegre

O documento final da conferência expressa a preocupação com o atual cenário internacional, marcado por crises econômicas, sociais e ambientais

Porto Alegre sediou entre os dias 26 e 29 de março a 1ª Conferência Internacional Antifascista. O encontro reuniu milhares de ativistas de mais de 40 países dos cinco continentes, consolidando um espaço de unidade na diversidade para fortalecer a resistência global contra o avanço da extrema direita, do fascismo e das políticas imperialistas. Representantes do Proifes-Federação estiveram presentes.

Encerramento da Conferência Antifascista (Foto: Marilia Dias/CNTE)

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) participou da mesa “Educação, Ciência e Tecnologia para a Soberania dos Povos”, realizada no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A presidenta da CNTE, Fátima Silva, destacou o papel central da educação pública na defesa da democracia. “O avanço da extrema direita e do fascismo não acontece de forma repentina. Ele dá sinais ao longo do tempo, e é preciso que estejamos atentos e organizados para enfrentá-lo”, afirmou.

A presidenta também reforçou a importância da educação pública como base para um projeto de sociedade mais justo. “Defender a educação pública é defender a democracia. É nesses espaços que se constrói consciência crítica, memória e compromisso social”, pontuou, ao destacar a necessidade de fortalecer a mobilização coletiva em defesa dos direitos da categoria.

Presidenta da CNTE, Fátima Silva, ao lado de Jairo Bolter, do Proifes (Foto: CNTE/Divulgação)

O presidente da Adufrgs-Sindical e tesoureiro do Proifes-Federação, Jairo Bolter, destacou a necessidade de uma defesa intransigente da soberania das universidades e da liberdade acadêmica. O dirigente também ressaltou o papel das instituições de ensino superior na participação nos debates públicos e a importância da organização estudantil e docente na vida universitária.

O dirigente sindical argentino e deputado Hugo Yasky apresentou uma análise sobre o cenário internacional. “Se constituímos maioria, é preciso que o povo também atue para que não sejamos transformados em minoria de direitos”, afirmou.

Yasky destacou a importância da luta dos povos latino-americanos. “A América Latina tem um destino de liberdade, e precisamos lutar para que esse destino se concretize”, acrescentou. Ao final de sua intervenção, a delegação argentina entoou palavras de ordem em defesa da educação, com o coro “pelea por la educación” (luta pela educação).

Carta de Porto Alegre

A chamada Carta de Porto Alegre, documento final da conferência, expressa a preocupação com o atual cenário internacional, marcado por crises econômicas, sociais e ambientais. Segundo o texto, o sistema capitalista vive uma fase de decadência, cuja resposta tem sido o fortalecimento de projetos autoritários, a imposição de políticas neoliberais e o aumento das agressões militares contra países e povos que resistem.

::: Leia a carta na íntegra

O documento assinado pela Conferência Internacional Antifascista destaca que, em diferentes partes do mundo, crescem mobilizações populares em defesa da democracia e dos direitos sociais. Entre os exemplos citados estão as grandes manifestações na Argentina, atos antifascistas no Reino Unido e mobilizações massivas nos Estados Unidos contra lideranças de extrema direita. Para os participantes, essas ações revelam que há uma resistência internacional em curso.

A Carta aponta que, embora o avanço da extrema direita assuma características específicas em cada país, há elementos comuns: retirada de direitos trabalhistas, ataques às liberdades democráticas, privatizações, desmonte dos serviços públicos, criminalização de movimentos sociais e sindicais, além do crescimento do racismo, da xenofobia, do machismo e da LGBTQIA+fobia.

Outro ponto central do documento é a denúncia do papel do imperialismo, caracterizado como cada vez mais agressivo e belicista, desrespeitando normas internacionais e a soberania dos povos. A situação da Palestina é destacada como um dos exemplos mais graves, classificada como um genocídio em curso, com forte crítica ao apoio dos Estados Unidos e de outras potências a Israel.

Diante desse cenário, a Carta de Porto Alegre reforça a necessidade de construção de uma ampla unidade internacional entre movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e forças políticas comprometidas com a defesa da classe trabalhadora, dos direitos humanos e da soberania dos povos.

O documento também aponta caminhos para além da resistência, defendendo a ampliação da democracia com participação popular, a valorização do mundo do trabalho, o enfrentamento à crise climática e a realização da reforma agrária como estratégia para garantir soberania alimentar.

Articulação internacional e próximos passos

Entre as deliberações aprovadas, está a criação de mecanismos permanentes de articulação internacional, como uma mesa global de coordenação entre organizações antifascistas e anti-imperialistas. A proposta inclui ainda a realização de conferências regionais e nacionais, com o objetivo de construir uma segunda edição da Conferência Internacional.

A Carta também manifesta solidariedade a diversos povos e países, como Cuba, Palestina, Haiti, Venezuela, Irã e Saara Ocidental, além de apoiar iniciativas internacionais de mobilização, como conferências regionais, encontros contra a Otan e o próximo Fórum Social Mundial, previsto para ocorrer no Benin, em agosto de 2026.

Outro destaque é o apoio a ações de solidariedade internacional, como flotilhas humanitárias e campanhas de boicote, além do incentivo à organização de jornadas globais contra o negacionismo climático e as políticas ambientais regressivas.

Chamado à luta global

Ao final, a Carta de Porto Alegre reafirma que o combate ao fascismo e ao imperialismo é uma tarefa urgente e histórica. O documento convoca organizações e movimentos de todo o mundo a fortalecerem a solidariedade internacional e a construírem um projeto de futuro baseado na justiça social, na democracia, na igualdade, no feminismo, no antirracismo e na sustentabilidade.

“Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional e da luta dos povos”, afirma o texto. A conferência encerra com o compromisso de continuidade da articulação global.

Imprensa Apufsc
Com informações da CNTE e Adufrgs