Pesquisadoras relatam como é possível e necessário abrir o meio acadêmico para mulheres, negras, indígenas, trans e outros
Dentro da trilha de gênero da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que ocorre até sábado, dia 1º, a cientista social Marilene Corrêa, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e diretora da SBPC, coordenou nessa quarta-feira, dia 29, uma mesa-redonda sobre gênero, diversidade, equidade e interseccionalidade na ciência.
A primeira a falar foi a psicóloga e sanitarista Marly Cruz, vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que afirmou o “desafio de pensar em gênero, diversidade e interseccionalidade que perpasse todos os escritórios” da instituição, que conta com 22 unidades no país. O princípio é não deixar ninguém para trás, e para isso é preciso romper barreiras e enfrentar problemas estruturais. Ela contou que a Fiocruz ganhou neste ano o selo de equidade de gênero e raça pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), mas não tratou a conquista como vitória.
“O racismo estrutural atravessa não só instituições, mas toda a nossa produção de conhecimento”, disse ela, que lamentou não ser comum citar autores negros nos currículos das disciplinas. “Estamos fazendo o esforço de implementar ações de divulgação científica nas diferentes unidades para ter engajamento público e dialogar de forma mais horizontal, promovendo a equidade de gênero e étnico-racial.”
A botânica Rosy Isaias, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tornou-se diretora do Departamento de Ciências Biológicas pela estratégia pensada com o coletivo de docentes negros: ser escolhida pela comunidade para um cargo eletivo lhe daria mais representatividade do que um cargo por indicação. “Em geral, a ciência é feita por homens brancos, héteros, cis e normativos.” A conquista, afirma, envolveu realizar muito trabalho, romper obstáculos, ultrapassar barreiras e fazer-se de surda para não reagir a agressões (mesmo que involuntárias).
Ela integra uma série de organizações que envolvem atividades e apoio entre mulheres negras, como as Bweems, uma organização não-governamental internacional cujo nome é a sigla em inglês para mulheres negras na ecologia, na evolução e nas ciências marinhas. “Com diversidade e novas cabeças, conseguimos ter criatividade e inovar para encontrar novas soluções para velhos problemas”, afirmou. As ações necessárias incluem a divulgação científica e a valorização de pesquisadoras, assim como o fortalecimento de redes colaborativas. “Neste ano conseguimos aprovar cotas para trans na UFMG, os alunos brigaram muito por isso.” Como mulher, carioca, flamenguista e periférica (de Nilópolis, na Baixada Fluminense), a botânica afirma enfrentar várias camadas de preconceito e sabe a importância de criar um ambiente inclusivo.
Reitora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), a pedagoga Adriana Marmori celebra sua instituição ser uma das primeiras universidades a implantar cotas para ingresso (disputando a primazia com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Uerj), há 25 anos. “Temos uma dívida histórica das pessoas que não ascendiam à universidade pública: estudantes negros e negras, muitas mulheres, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas trans, portadoras de deficiência, assim como outros marcadores sociais.”
São muitas as conquistas, com as mulheres muito representadas na Uneb, mas ela ainda não considera suficiente. “Precisamos fazer a desconstrução do patriarcado, o enfrentamento dos preconceitos”, diz, lembrando que 62% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. “Defendo uma ciência identitária a partir das demandas sociais, que provoque intervenções e mudanças e seja base para outras formulações.” Marmori relata que as mulheres são apenas 30% dos pesquisadores do País, e delas só 3% são negras.
Para além de sua instituição, o pensamento da pesquisadora é global. “Internacionalizar é reconhecer que o mundo é pluriversal, dinâmico e complexo; a equidade é a principal meta da justiça social e só se conquista com democracia”, diz. “A ciência é produzida por corpos diversos.”
A neurocientista Leticia de Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), fechou a mesa como coordenadora da Comissão Permanente de Equidade, Diversidade e Inclusão (CPEDI) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). O desafio começa na composição, que, entre 16 pessoas, conta com um homem e poucas pessoas negras. “Estamos fazendo uma busca ativa no quadro de funcionários. É sintomático eu ser uma mulher branca na coordenação.” Ela também é organizadora da temática de gênero na Reunião Anual.
Ao assumir a comissão e tentar diagnosticar os problemas, Oliveira descobriu que o cadastro da Faperj não incluía a informação racial, de identidade de gênero e de presença de deficiência. Depois de mudar e ter acesso ao percentual da presença de cada grupo, tornou-se possível começar a pensar em políticas. Ações como a contratação de recreação infantil e salas de amamentação em eventos científicos, assim como a ampliação da janela de avaliação do currículo para pesquisadoras que se tornaram mães no período de avaliação e editais específicos, entre outras, vêm ajudando a reparar desigualdades. Em outubro, está previsto um seminário interno para avaliar os resultados do Programa de Apoio às Cientistas Mães e do programa Meninas e Mulheres nas Ciências. “Há certamente muito a melhorar, estamos no começo.”
Proifes na SBPC
O Proifes-Federação é a única entidade representativa dos docentes federais a participar da 78ª Reunião Anual da SBPC. Em um estande na ExpoT&C, a Federação exibe até sábado, dia 1º, projetos desenvolvidos por pesquisadores dos sindicatos filiados. Além disso, mediou três debates sobre ciência e carreira docente, no auditório principal do evento, que está sendo realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, no Rio de Janeiro.
Fonte: Jornal da Ciência
