*Por Jorge Cássio Costa Nóbriga
Meu saudoso pai costumava repetir uma frase que ficou comigo por toda a vida: “Não minta para mim! Mentira é a pior coisa, porque eu perderei a confiança em você.”
Hoje repito essa frase aos meus filhos e acrescento uma coisa: quando alguém me conta uma mentira facilmente verificável, além de comprometer minha confiança, transmite a impressão de que está subestimando minha inteligência. Como se acreditasse que eu simplesmente aceitarei qualquer afirmação que me seja apresentada.
Infelizmente, foi exatamente essa a sensação que tive ao assistir ao debate entre as chapas que disputam a direção da Apufsc.
Sou professor da UFSC em Blumenau, conselheiro da Apufsc e candidato a Diretor Financeiro Adjunto pela Chapa 1 — Mobiliza Apufsc: Base, Democracia e Luta. Portanto, escrevo a partir de uma posição conhecida e que faço questão de explicitar.
Durante o debate, o professor Romeu Bezerra, candidato à Presidência pela Chapa 2, fez afirmações sobre a presença da atual Diretoria nos campi fora de Florianópolis que, pelo menos no que diz respeito a Blumenau, não correspondem à realidade que vivenciamos.
Uma delas foi a afirmação de que a atual gestão realiza visitas constantes aos campi do interior.
Em Blumenau, onde trabalho, isso simplesmente não corresponde à nossa experiência. Nas duas últimas gestões, as visitas da Diretoria foram raríssimas: registro apenas duas, ambas em períodos próximos às eleições. Em uma delas, na eleição anterior, representantes vieram ao campus trazendo inclusive material de campanha da chapa apoiada por integrantes da gestão.
Se a Diretoria entende que houve outras visitas institucionais a Blumenau, seria muito simples esclarecer a questão: que apresente as datas, as pautas, os participantes e os registros dessas visitas. Se estou equivocado, não terei qualquer dificuldade em reconhecer publicamente o erro.
Outra afirmação feita no debate foi a de que teriam sido reabertas todas as sedes da Apufsc no interior.
Onde está a sede da APUFSC em Blumenau?
Eu trabalho neste campus. Sou filiado. Sou conselheiro do sindicato. E desconheço a existência dessa sede.
Novamente, trata-se de algo muito fácil de esclarecer. Se existe uma sede da Apufsc em Blumenau, basta informar seu endereço, horário de funcionamento e estrutura disponível aos sindicalizados.
É justamente a facilidade de verificar essas afirmações que torna o episódio tão grave para mim.
Não é apenas uma divergência eleitoral
Não estou discutindo aqui uma diferença de programa entre duas chapas. Divergências políticas são legítimas e necessárias em qualquer sindicato democrático.
Estou falando de confiança.
A atual Diretoria critica — corretamente — a disseminação de desinformação e fake news na política brasileira. Por isso mesmo, considero indispensável que adotemos dentro do nosso sindicato um padrão ainda mais rigoroso: afirmações sobre realizações da gestão precisam poder ser demonstradas.
Não podemos condenar a utilização de informações falsas quando praticada por nossos adversários políticos e relativizá-la quando ela nos beneficia eleitoralmente.
O princípio precisa valer para todos.
E confiança também importa no processo eleitoral
Essa discussão inevitavelmente se conecta a outra controvérsia que já ocorreu dentro da Apufsc.
Um grupo de conselheiros, do qual faço parte, questionou a maneira pela qual foi definido o sistema eletrônico utilizado na eleição da Diretoria e defendeu que o assunto fosse discutido coletivamente, propondo inclusive a utilização do e-Democracia, sistema já empregado em processos eleitorais da UFSC. A manifestação dos conselheiros está publicada no próprio portal da Apufsc. Nota de representantes do Conselho da Apufsc.
A Diretoria apresentou suas razões para manter o sistema atualmente contratado: afirma que ele é auditável, utilizado por cerca de cem entidades sindicais e argumenta que uma mudança para o e-Democracia poderia trazer dificuldades de cadastramento, particularmente para aposentados. Nota da Diretoria sobre a reunião do Conselho.
É legítimo discordar desses argumentos. Mais importante ainda: é legítimo exigir transparência.
A questão central não deveria ser simplesmente qual sistema uma Diretoria prefere. Deveria ser: por que uma decisão tão sensível quanto o mecanismo utilizado para eleger a própria Diretoria não foi construída previamente nas instâncias colegiadas do sindicato?
Os conselheiros que questionaram o processo sustentaram publicamente que a Diretoria extrapolou aquilo que lhe caberia definir no edital, que o sistema foi contratado sem consulta aos sindicalizados ou às instâncias da Apufsc e que somente a Diretoria possuía a lista dos aptos a votar. A Diretoria contesta essas críticas e afirma que o procedimento observa o Estatuto. As duas posições estão publicadas no portal e podem — e devem — ser examinadas pelos filiados.
Não estou afirmando que haverá fraude eleitoral. Não tenho elementos para fazer uma acusação dessa gravidade.
Estou afirmando algo diferente: um processo eleitoral precisa inspirar confiança, e isso se constrói com transparência, participação e informações verdadeiras.
A Apufsc que precisamos reconstruir
Para mim, esse episódio sintetiza parte do problema que temos hoje.
Precisamos de um sindicato no qual a Diretoria não apareça nos campi apenas esporadicamente; no qual Blumenau, Joinville, Curitibanos e Araranguá não sejam lembrados somente quando chega uma eleição; no qual os filiados possam conhecer e participar das decisões relevantes; e no qual nenhuma gestão considere aceitável apresentar como realização aquilo que os próprios docentes dos campi não reconhecem na realidade.
É exatamente por acreditar que podemos reconstruir essa relação que aceitei participar da Chapa 1. Volto, então, ao ensinamento simples do meu pai.
“Não minta para mim.”
Não porque eu espere concordar sempre com quem dirige meu sindicato. Pelo contrário. Quero um sindicato no qual possamos divergir muito.
Mas quero poder confiar que, quando sua direção apresenta um fato aos filiados, está dizendo a verdade.
E, quando uma afirmação for contestada com fatos, espero algo igualmente simples: que seja comprovada ou corrigida.
*Jorge Cássio Costa Nóbriga é professor do Departamento de Ciências Exatas e Educação (CCE/UFSC/Blumenau)
Artigo recebido às 10h33 do dia 8 de outubro de 2026 e publicado às 13h45 do mesmo dia
