Para a CDGEN, os dados revelam a permanência de práticas abusivas e de relações hierárquicas desiguais
Reportagem publicada pela Apufsc-Sindical revela que o número de denúncias de assédio moral e sexual feitas à Ouvidoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) subiu mais de 12 vezes entre 2020 e 2025 – um aumento de 1.166,67%. O total de casos denunciados saltou de nove em 2020 para 114 em 2025, conforme os dados consolidados pelo órgão.
As denúncias de assédio sexual aumentaram mais que a média: foram duas em 2020 e 27 em 2025 – aumento de 1.250%, ou seja, subiram 13,5 vezes. Já os casos denunciados de assédio moral saltaram de sete em 2020 para 87 em 2025 – aumento de 1.142,86%.
A UFSC conta com a Coordenadoria de Diversidade Sexual e Enfrentamento da Violência de Gênero (CDGEN), ligada à Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), que atua no enfrentamento às violências de gênero, à LGBTfobia e a outras formas de discriminação na universidade. O setor de Imprensa da Apufsc procurou o órgão para analisar os dados revelados na reportagem.
Conforme a coordenadora Carolina Seidel, não se pode atribuir o aumento no número de denúncias a um único fator: “Pode indicar, ao mesmo tempo, maior conhecimento da comunidade universitária sobre o que caracteriza assédio, maior visibilidade do tema, ampliação do debate público, fortalecimento dos canais institucionais e maior disposição das vítimas em romper o silêncio”.
Ela acrescenta que “também é possível que parte desse crescimento esteja relacionada à melhoria dos fluxos de registro e à maior confiança nos canais de denúncia e acolhimento”. Para a CDGEN, “quando a universidade divulga informações, orienta a comunidade e torna os procedimentos mais acessíveis, situações que antes eram silenciadas passam a ser formalizadas”.
Carolina pondera, porém, que isso não significa que o problema esteja resolvido:
“Os dados também revelam a permanência de práticas abusivas, de violências de gênero, de relações hierárquicas desiguais e de formas de discriminação que ainda precisam ser enfrentadas de maneira institucional, contínua e responsável”.
Prevenção, acolhimento e responsabilização
Para Carolina Seidel, para que o número de casos diminua, é necessário combinar prevenção, acolhimento e responsabilização. “A redução do assédio não depende apenas da existência de canais de denúncia, embora eles sejam fundamentais. É preciso atuar antes que a violência aconteça, transformando práticas institucionais e relações marcadas por hierarquias abusivas, silenciamento e discriminação”.
A coordenadora considera que, entre as medidas necessárias, estão a formação contínua de docentes, técnicos-administrativos, estudantes, trabalhadores terceirizados e, especialmente, pessoas em cargos de gestão. Além disso, sugere a ampla divulgação dos canais de acolhimento e denúncia, a proteção das vítimas contra retaliações, a celeridade nos processos de apuração e a responsabilização adequada dos agressores quando os casos forem confirmados.
Carolina acrescenta que é importante produzir e monitorar dados sobre as denúncias, respeitando o sigilo das pessoas envolvidas, para que a universidade possa identificar padrões, setores mais vulneráveis e necessidades específicas de intervenção.
“Entendemos que o assédio não é apenas um problema individual, mas se sustenta, muitas vezes, em relações desiguais de poder, no machismo, no racismo, na LGBTfobia, no capacitismo e em outras formas de opressão”, completa a coordenadora.
Orientação às vítimas
A CDGEN atua no acolhimento, escuta qualificada, orientação e encaminhamentos às vítimas de assédio, seja moral ou sexual, “sempre com atenção ao sigilo, ao cuidado com a vítima e à não revitimização”.
A coordenadora reforça que “o setor não substitui os órgãos formais de denúncia e apuração, como a Ouvidoria e as instâncias competentes da universidade”, mas “pode orientar as pessoas sobre seus direitos, sobre os fluxos institucionais disponíveis e sobre os caminhos possíveis para buscar proteção, cuidado e responsabilização”.
A Coordenadoria também atua de forma preventiva e educativa por meio de campanhas, materiais informativos, atividades formativas, rodas de conversa e articulação com outros setores da universidade. “O objetivo é contribuir para que a comunidade acadêmica reconheça situações de assédio, saiba como agir diante delas e compreenda que práticas abusivas não podem ser naturalizadas no ambiente universitário”, completa Carolina.
Como denunciar
Denúncias de assédio moral ou sexual na UFSC devem ser registradas junto à Ouvidoria por meio da plataforma Fala.BR por qualquer pessoa, sendo que chefias têm o dever de comunicar fatos de que tiverem ciência. A manifestação precisa conter elementos mínimos de autoria, materialidade e compreensão, podendo a Ouvidoria solicitar complementações.
O encaminhamento à apuração depende do vínculo da pessoa denunciada: servidores/as são apurados pela unidade correcional, discentes em processo próprio, e terceirizados/as por meio da gestão do contrato com apoio da Pró-Reitoria de Administração (Proad).
O tratamento deve ser célere e pautado pela proteção de dados, pela não revitimização e pela valorização do depoimento da vítima, garantindo-se transparência sobre o desfecho, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
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Guia Lilás: Orientações para prevenção e tratamento ao assédio moral e sexual e à discriminação no governo federal
Política institucional contra assédio e discriminação na UFSC
Stefani Ceolla
Imprensa Apufsc
