Professores reclamam das condições de trabalho no campus da UFSC de Joinville

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) aderiu ao Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais Brasileiras (Reuni), em 2008, e, com os recursos, foram instalados, em 2009, três campi no interior do estado: Araranguá, Curitibanos e Joinville. Ocorre que a infraestrutura nessas unidades é precária e a comunidade universitária está preocupada com a qualidade do ensino oferecido pela Universidade. Em setembro o Boletim da Apufsc mostrou a realidade no campus de Curitibanos e, nesta edição, aponta o que está acontecendo na unidade de Joinville. Para isto, foram entrevistados professores, técnicos administrativos, estudantes, que falaram em grupo com a reportagem, e direção do campus.

O site oficial da UFSC afirma que “o Campus Joinville é constituído atualmente pelo Centro de Engenharias da Mobilidade (CEM), uma estrutura de ensino, pesquisa e extensão, que se destina à formação de profissionais, tanto em nível de bacharelado como de engenharia, de alta competência técnica e gerencial, com foco no desenvolvimento de sistemas técnicos no campo veicular (automobilístico, metroviário, ferroviário, marítimo, fluvial, aéreo, espacial e mecatrônica) e no estudo de cenários e projetos para resolver problemas de infraestrutura, operação e manutenção de sistemas de transporte. Doravante deverão ser integrados outros conhecimentos ao Campus Joinville para responder as necessidades nas áreas ambiental, social, econômica, humana, de urbanismo, de informação e de fundamentos em física, química, biologia e matemática”, mas, pelos relatos apontados, a realidade é bem diferente.

O campus da UFSC da maior cidade de Santa Catarina foi inaugurado em agosto de 2009, numa sede provisória dentro da Universidade da Região de Joinville, com a promessa de em pouco tempo funcionar em uma sede própria, localizada às margens da BR 101, conhecida como a Curva do Arroz. Como as obras não ficaram prontas e com a necessidade de ampliar a estrutura, os cursos passaram a funcionar em prédios alugados no bairro Santo Antônio, que hoje também não comporta mais as necessidades da comunidade universitária. A tão prometida obra do campus definitivo está parada e a nova previsão da Reitoria é que só seja entregue no início de 2016. Enquanto isso, professores, técnicos administrativos e alunos reclamam que não há mais condições de trabalho na atual sede. O espaço não comporta a demanda. Não há salas de aulas suficientes, faltam laboratório e salas de estudos. Para trabalhar, os atuais 60 professores contam com apenas quatro salas, sendo que em uma delas trabalham 27 docentes e um TA ao mesmo tempo, prejudicando, desta forma, o planejamento de aulas e o atendimento dos mais de 1.300 alunos. “Como atender vários alunos ao mesmo tempo numa Única sala de aula. Os próprios alunos estão se sentindo constrangidos, quando vão três ao mesmo tempo, dois ficam esperando no corredor”, relatam os docentes. Devido a este problema, muitos professores estão fazendo o planejamento das aulas em casa e atendendo os alunos fora do expediente.

“Não se tem clareza de quando a obra vai ficar pronta, nem se tem dinheiro para a conclusão. Estamos numa situação provisória que está quase virando permanente. O espaço físico é cada vez mais insuficiente. Os cursos estão avançando e cada vez mais alunos entrando. Para nós, a prioridade máxima deveria ser a de implantar o campus definitivo”, reclamam os professores. Atualmente, só com o aluguel do principal prédio, a Universidade gasta cerca de R$ 150 mil mensais.

Outro problema é com a biblioteca. O espaço é pequeno e conta apenas com dez mesas de duas ou quatro cadeiras, mesmo assim mal distribuídas. Também faltam tomadas para o uso de computadores. Por falta de espaço, muitos alunos precisam esperar ou estudar nos corredores. Por falta de atendentes, o local funciona apenas das 9h às 12h e das 13h às 17h.

Além do espaço físico, há sérios problemas com material de expediente e pessoal. Para atender toda a estrutura, o campus conta com 27 técnicos administrativos. O ideal, seriam, no mínimo, 60 profissionais. Para se ter uma ideia, existe apenas um técnico em informática para atender todo o campus. De acordo com professores e técnicos administrativos, faltam desde papel até canetas. Em muitos casos, para suprir as necessidades, eles mesmo compram com dinheiro próprio o material. “A gente faz a solicitação que o professor pediu, mandamos todo o processo para a Reitoria que aprovas, mas na hora na execução afirmam que não tem recursos. Ficamos um bom período sem papel e caneta”, citam os técnicos administrativos.

Tanto professores, quando TAs defendem mais autonomia financeira para o campus, para não precisar da autorização da Reitoria para a aquisição de material. “Não temos orçamento próprio, todas as compras dependem da Administração Central em Florianópolis. Defendemos uma gestão mais democrática, com autonomia administrativa e financeira”, declaram eles.

Nas questões acadêmicas, a situação também é complicada. Os cursos ainda não foram reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) e alunos não conseguem vagas de estágio por esse motivo. “Estamos quase formando alunos e os cursos ainda precisam de autorização. Foi estruturado um curso de pós-graduação que corre o risco de não ser implantado por falta de estrutura”, reclamam os professores.

Com cursos considerados inovadores e que precisam de equipamentos modernos e de alta tecnologia para preparar o aluno, os laboratórios também não correspondem com a necessidade. O campus conta apenas com três unidades estruturadas, mesmo assim, de acordo com os docentes, limitados e que não suportam o trabalho de mais de três alunos por vez, prejudicando, desta forma, a pesquisa. As oficinas não ficam dentro da sede principal, são galpões alugados foram do campus. Os professores afirmam que correm atrás de recursos para a implantação de mais laboratórios para atender a demanda de todos os cursos, mas esbarram na falta de estrutura para implementá-los. “Podemos incentivar os docentes a buscar recursos, mas não tem como implantar por falta de espaço. Isso acaba limitando nosso trabalho”, desabafam. Segundo eles, já foi aprovado projeto de R$ 2,5 milhões para implantação de novos laboratórios que eram previstos para serem colocados na sede própria da Curva do Arroz, mas com a não conclusão das obras e a falta de espaços no atual prédio, não serão viabilizados.

Os professores afirma que se sentem abandonados pela Reitoria da UFSC. De acordo com eles, a reitora Roselane Neckel já esteve no campus duas ou três vezes, ouve as reclamações da comunidade universitária, mas não dá nenhum tipo de retorno. “Parece que não temos espaço para falar com a Reitoria. De maneira geral, não temos informações do cronograma das obras. Mas, independente de ficar pronta a obra na Curva do Arroz ou não, o que queremos são condições de trabalho. Precisamos de espaço físico”, afirmam.

Alunos afirmam que falta de estrutura prejudica qualidade do ensino

A angÚstia dos professores e dos técnicos administrativos do campus de Joinville é compartilhada com os alunos. Para eles, a qualidade do ensino é prejudicada por falta de infraestrutura adequada. “Se os professores não têm espaço, nós também não temos e isso prejudica a qualidade do ensino oferecido pela Instituição. O que adianta dizer que fui formada pela UFSC, mas sem qualidade”, destaca a estudante Aline Fernandes de Souza, do curso de Engenharia Ferroviária.

Na avaliação da acadêmica, que está na sétima fase, portanto acompanha a implantação do campus desde o início, o diferencial são os professores. “Eles são muito bons. Têm muita vontade de ensinar e crescer, mas a instituição não dá apoio. Não nem um mísero canetão para escrever no quadro. Os alunos não têm local de convivência. Na nossa lanchonete não cabe 30 pessoas”, reclama Aline. Ela também relata os problemas com a biblioteca. “O número de livro até que é bom, mas tem horas que não tem como entrar num lugar que cabem apenas 20 pessoas. Os alunos chegam a fazer fila para conseguir mesa para poder estudar”, revela.

Outra reclamação dos estudantes é em relação à sala de monitoria, que foi desativada para ser ocupada para outras funções. “A qualidade do atendimento é prejudicada pela falta de espaço. A sala de monitoria foi tirada. A sala de estudo tem apenas três tomadas. Os alunos e monitores utilizam salas de aulas quando estão vagas. Dependemos até da padaria da esquina para estudar”, afirma André Bonato, do curso de Engenharia Mecatrônica. Para os estudantes, o projeto de colocar 200 alunos numa Única sala de aula, nas primeiras fases, também compromete a qualidade do ensino oferecido.

Os alunos relatam, ainda, os problemas com os laboratórios. De acordo com eles, vários projetos desenvolvidos exclusivamente por estudantes já foram premiados, mas que as condições das oficinas prejudicam o andamento dos trabalhos. “Tivemos várias premiações com esta estrutura, imagina se tivéssemos condições melhores”, destaca Marco Antônio Rosso, acadêmico do curso de Engenharia Automotiva. “Temos que disputar espaço com outras equipes nos laboratórios. Tem maquinário lá e não tem técnico capacitado para ajudar. Em alguns casos, temos que comprar ou arrumar emprestado material para realizar o trabalho. Uma equipe acaba prejudicando a outra por falta de espaço”, complementa Jonathan Cristofolin, aluno de Engenharia de Infraestrutura.

De acordo com os estudantes, várias reinvindicações sobre as condições do campus já foram encaminhadas à Reitoria, mas nenhuma resposta foi encaminhada. Segundo eles, a evasão no campus é alta e um dos fatores é justamente a falta de estrutura. “Você não tem onde encontrar estudos. Ir para exterior é o melhor caminho. Não para aumentar o currículo, mas porque a UFSC não dá condições. O número de evasão é muito alto, principalmente pelo descaso com o campus”, destaca Aline.

O diretor geral do campus, professor Luiz Fernando Peres Calil, que assumiu o cargo em março deste ano, reconhece que as condições são precárias e afirma a que obra da Curva do Arroz vai ficar pronta somente no início de 2016. “Enquanto isso, estamos trabalhando para melhorar a estrutura. Estamos alugando novos prédios que vão abrigar o setor administrativo, biblioteca, locais para o desenvolvimento de projetos e salas para os professores. A ideia é termos uma estrutura adequada para operar”, afirma ele, acrescentando que está com dificuldades para encontrar imóveis na região e com os valores altos dos aluguéis.

Além da infraestrutura, Calil reconhece que o número de professores e técnicos administrativos é insuficiente para atender a demanda. Para ele, o número ideal seria de 110 docentes e 150 TAs. Ele também levanta a questão de o campus ainda não ter o regimento aprovado pelo Conselho Universitário e isso colabora para o atraso em atender muitas das reivindicações da comunidade universitária. “Minha expectativa era de resolver os problemas muito mais rapidamente. Sou um dos mais apavorados com a situação, mas estou aqui justamente para isso, trabalhar para melhor o campus”, declara ele.

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